Pensamentogrupal, “A Onda” e Cesar Maia
Nos desafios para criação de ambientes para a inteligência organizacional, um dos temas que mais me fascinam é a irracionalidade e cegueira comuns no comportamento em grupos, e o fenômeno da dissonância cognitiva, que faz que as pessoas ajustem seu pensamento para validar o que fazem e sentem na prática.
Um conceito que me marcou muito é o de pensamentogrupal (assim mesmo: seria sacanagem traduzir Groupthink para “pensamento grupal”). Vivo com freqüência os paradoxos deste fenômeno, desde o bullying nos tempos de escola até a visão das torcidas depredando bancas de jornal na Av. Paulista após o jogo.
Perco a calma ao ver aflorar a dobradinha prepotência- conformismo em reuniões de equipes hegemonizadas pelas entregas do PMBOK, ou até mesmo em grupos pacifistas que se tornaram internamente belicistas. Pressão do grupo contra visões que divergem do pensamento único dominante, autocensura (“fica quieto quem tem juízo”), exclusão, estigmatização, paranóia. Dei um nome feio ao resultado disso para a inteligência coletiva: “efeito esfíncter”, pois estreita os fluxos de idéias e de feedbacks, e asfixia a aprendizagem. O blog da SocialText, um dos grandes players em ambientes para wikis corporativos, tem um texto muito bacana sobre isso: “Que fatores inibem a inteligência coletiva” (em inglês), do Prof. Thomas Malone do MIT, que vem aí pela HSM.
O GroupThink pode ser dramático, como mostra “Essence of Decision: – Explaining the Cuban Missile Crisis” (Graham Allison, 1971 e 1999). Tragédias nacionais e corporativas podem ser associadas à teimosia e arrogância de líderes e à conformidade (palavra tão na moda – “compliance”, hehehe) de suas equipes. Vale a pena ler o clássico “Marcha da Insensatez: de Tróia ao Vietnã”, de Barbara Tuchman (a Submarino não tem mas sua resenha é ótima). Suas lições aplicam-se ao mundo PMI e BSC levados a ferro e fogo.

Por que nos preocuparmos com o pensamentogrupal?
Pois então. Assisti nesta semana o imperdível “A Onda” (bem comentado também aqui. E hoje li o artigo “Transformismo”, do Cesar Maia.
“A Onda” é um filme situado numa cidade alemã, mas baseado numa história que realmente aconteceu nos Estados Unidos. Um professor jovem e alegre, amigão de seus alunos, recebe a incumbência de dar um curso de uma semana sobre autocracia. Tem a genial idéia de simular um ambiente autocrático de fato. O filme me lembra o que estudei em psicologia social sobre as experiências de Stanley Milgram com a predisposição à tortura (o blog do Rodolfo Araújo é um tesouro de relatos saborosos desse tipo de experiências – veja também seu post sobre Phil Zimbardo. Em “A Onda”, a experiência com os alunos gera um clima com efeitos para fora da escola que o professor não consegue mais controlar. É nitidamente um caso de aprendiz de feiticeiro. O filme revela a dinâmica do desencadeamento de emoções e identificações patológicas, das neuras autoritárias que cada um carrega, e até mesmo das rupturas de lealdades entre namorados, no campo de forças polarizado entre quem está conosco e quem está contra nós. Freud explica, nas crônicas do Contardo Calligaris.
Ao passarmos dos grupos para níveis superiores de organização social, essa irracionalidade se torna mais complexa. Nas organizações, valores e normas explícitas ou tácitas influenciam de forma decisiva o comportamento. E aí chegamos aos paradoxos kafkianos tão comuns às organizações burocráticas. Considere o efeito que tem sobre os executivos a trimestralidade dos resultados para o mercado, ou o destaque dado a indicadores tradicionais em detrimento de outros, menos tangíveis (vamos combinar: a inovação do Balanced Scorecard, que introduz metas e indicadores não financeiros, nem sempre é tratado a sério. Se na sua empresa as metas de aprendizagem são para valer, me traga o caso, pois é exceção).
No nível societal, mais um complicador: as instituições que dão forma aos jogos de poder. Veja o artigo de hoje, “Transformismo”, de Cesar Maia . Ele comenta o livro “Mussolini e a Ascensão do Fascismo” de Donald Sassoon, mostrando a verossimilhança de uma virada fascista num país com sistema político bem parecidinho com o nosso, e faz pensar como podemos estar a poucos graus de distância de um golpe como o de Mussolini. Tendo ganho 6,5% dos votos em maio de 1921, Mussolini, parte minoritária da então “base aliada”, entra em Roma em outubro de 1922 numa marcha encenada, e no dia seguinte é nomeado primeiro ministro, “ocupando o vácuo criado pela despolitização “transformista”.
Bem preocupante, em tempos de mensalões e “governabilidade” à la Sarney.
Nos grupos, nas organizações e na sociedade, o que entra em cena é o chamado poder do contexto. Não somos racionais. Nos transformamos, conforme o contexto em que estamos. Malcolm Gladwell, em “O Ponto da Virada”, traz o paradoxo da queda abrupta da violência urbana em Nova Iorque nos anos 90, quando a Prefeitura e a Polícia adotaram a “teoria das janelas quebradas”: consertar tudo que estava quebrado ou pixado, para reverter o contexto de abandono que eles viam como base para a violência. Deu certo. Foi a famosa “Tolerância Zero” (interpretada de forma deturpada nas campanhas do Maluf), acompanhada por ações semelhantes ao que vem sendo feito em Bogotá e na favela de Heliópolis, ao plantar bibliotecas e centros de cultura. Pois então: os criminosos não foram embora de Nova Iorque, mas a criminalidade diminuiu. Transformação de acordo com o contexto.
Você poderá fazer o conhecimento em sua organização fluir, se ela tem um contexto gerador do efeito esfíncter?
Não há gestão do conhecimento que não passe pelo planejamento e gestão da mudança do contexto: mudar o processo decisório, mudar formas de reconhecimento e premiação, diluir barreiras culturais à livre expressão, coaching para mudar a cabeça de gerentes.
Quer explorar mais sobre o poder do contexto? Leia alguns capítulos de “O Ponto da Virada”, do Malcolm Gladwell, ou leia as resenhas no blog do Rodolfo.
Trata-se, em suma, nos grupos, organizações e sociedades, do efeito perverso da obediência e da conformidade com a pressão grupal. Dado o contexto favorável, todos nós somos suscetíveis. como mostram “A Onda” e essas experiências. Mais a respeito disso? Sugiro ler também “Trote de calouros” e “Os tarados de Abu Ghraib”, do Contardo Calligaris, e “O monstro interior”, no blog do Rodrigo, que achei no Google.
Bem, como dizia o grande Júlio Gouveia no seu Teatro da Juventude da TV Tupi dos domingos na década de 50: “entrou por uma porta, saiu pela outra, quem quiser que conte outra”.
Até a próxima!
