Carta aberta a Fernando Henrique

quinta-feira, 19 abril 2012, 15:57 | Categoria : Citizens´ diplomacy, Inteligência Coletiva, Justiça e paz, Oriente Médio
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Caro professor

A facilidade dos novos tempos me permite dirigir-lhe a palavra diretamente e em público, sem pedir licença, e sem depender de intermediários que filtrem o que tenho a dizer.

Você certamente conhece o fenômeno dos seis graus de distância que separam quaisquer duas pessoas no planeta. Eu e você estamos separados por apenas dois graus, com amigos em comum que privam de sua intimidade. Estou certo de que alguém cujo telefonema você atende chamará a sua atenção para este apelo.

Uma curtissima apresentação, quase irrelevante. Tivemos um pouquinho de proximidade direta quando mergulhei em sua campanha para a prefeitura de São Paulo, há 27 anos, na coordenação do Comitê dos Profissionais Liberais, de que você talvez se recorde. Não me reconhecerá ao nos cruzarmos, na curta distância de 100 metros que me separam da banca de coco onde talvez possamos continuar essa conversa, em frente à sua sacada. Mas essa apresentação só importa por causa do número, pois espero poder celebrar quatro septênios numa campanha maior, e desta vez vitoriosa.

Sei que minha ousadia traz o risco de que alguns me julgarão impertinente, patético ou presunçoso. Faço-o  por entender que está na sua mão a chave para a solução da questão Israel-Palestina, que pode mudar os rumos da humanidade e ter desdobramentos não apenas para os povos da região, mas também para os destinos da política brasileira e até mesmo os da política norteamericana.

Há uma janela de oportunidade, de curta duração, para que você marque sua biografia com  um movimento de grande estadista, magnificado ainda pelo fato de não ter hoje – e não precisar disso – um cargo que lhe confira formalmente esse papel. E tudo que você poderia talvez fazer já hoje, em homenagem ao Dia da Memória do Holocausto – que poderá se tornar um dia universal em memória de todas as tragédias coletivas causadas pela insanidade humana – é dar três telefonemas, a pessoas que o atenderão calorosamente: Shimon Peres, Mahmood Abbas e Nelson Mandela. Três telefonemas que poderão mudar o curso da história. E mais um que sugerirei mais adiante.

Você talvez não faça ideia da dimensão dos movimentos sociais que, em Israel e na Palestina, representam a maioria em ambas as sociedades que deseja concluir de forma amistosa o processo de paz que se arrasta desde os acordos de Oslo, em 1992, e que deveria ter se concluído no prazo de cinco anos, e que não o foi, talvez por duas ironias da história: o assassinato de Itzhak Rabin por um extremista de seu próprio povo, a eleição de 1996 em Israel ter sido ganha por Benjamin Netanyahu, por margem de 1% sobre outro dos campeões do processo de paz, Shimon Peres. Como conhecedor das imperfeições da democracia, você certamente entende a tragédia daqueles 1%, e conhece também a força que podem ter os pequenos gestos.

As negociações entre esses movimentos por uma paz justa prosseguiram mesmo durante o período de oito anos de trevas em que George Bush Jr. substituiu no governo norteamericano o patrono das negociações de Camp David, Bill Clinton. É um movimento amplo, com lideranças expressivas e representativas, que conduziram, mesmo fora do poder, como você está hoje, a chamada Iniciativa de Genebra, em 2002, que chegou a acordos simulados que são as bases mais sólidas para um acordo definitivo de paz para por fim a 80 anos de violências mútuas. Há de se notar que dois desses líderes, os ex-ministros de Israel e da Autoridade Nacional Palestina, Yossi Beilin e Yasser Abbed Rabbo, trouxeram há poucos dias esclarecimentos em sessão conjunta das Comissões de Relações Exteriores da Câmara e do Senado federais.

Você talvez goste de saber um dado histórico para a compreensão plena das origens desse conflito que vem torturando 4 gerações de judeus israelenses e árabes palestinos. É este dado que me leva a dizer 80 anos, e não 64 (desde a criação do Estado de Israel e a concomitante Nakba, ou catástrofe, palestina), nem 100 (porque nos aproximamos do centenário do Acordo Sykes-Picot, em que ingleses e franceses acordaram a divisão do espólio do Império Otomano, com promessas para judeus e árabes que se mostraram conflitivas.

O entendimento das datas é importante por  poder levar a um melhor entendimento da História, e facilitar a reconciliação das narrativas dos dois povos. Digo 80 anos porque, ainda em 1929, 400 judeus foram salvos por 19 famílias palestinas, de um massacre cometido por uma turba árabe em Hebron, evidenciando que o antagonismo era incipiente. E na década seguinte há dois fatos de enorme significância, que são encobertos nas narrativas de ambos os povos pelas brumas da História e pelo ruído da culpabilização recíproca: 1. a ascenção de Hitler ao poder;  e 2. a conquista da hegemonia palestina por um líder, Haj Amin Al Husseini, cujas decisões determinaram o antagonismo excludente entre os que vieram a constituir o Estado de Israel e os que vieram a constituir a identidade nacional palestina.

Não se imaginava então uma vida tão breve para o Terceiro Reich   (causa espanto observar que o estrago todo foi feito em não mais que 12 anos, embora Hitler o desejasse “o Reich de Mil Anos”). A opção desastrosa que esse líder palestino fez  - aliar-se ao imperialismo germânico para derrotar o imperialismo britânico –  continua sendo um esqueleto no armário que é pouco conhecido. Sua pregação do extermínio dos judeus na Palestina, durante uma insurreição sangrenta de 3 anos (em que as vítimas mais numerosas foram de seu próprio povo) levou as lideranças judaicas na Palestina a concluírem que tinham ao seu lado uma extensão do monstro já visível que logo revelaria a destrutividade, ceifando na Europa dezenas de milhões de vidas. A violência desse período não pode deixar de ser associada ao que veio a ocorrer com os palestinos uma década mais tarde, com a criação do Estado de Israel:  o que foi parcialmente um êxodo e parcialmente a expulsão, de 700.000 palestinos (e a decorrente expulsão de cerca da mesma quantidade de judeus que viviam em paz com seus vizinhos nos países árabes. Vale dizer que aquele personagem sinistro esteve também por trás dos primeiros massacres de judeus (Farhoud) até mesmo no Iraque, em que judeus haviam vivido em paz e amizade com o povo árabe desde a Babilônia, nos tempos bíblicos.

Professor, agora mostrarei por que estou convencido de que você é o homem com a chave da solução para por fim a essa etapa trágica na história de dois povos e iniciar uma nova era em que a paz, possível e desejada pela maioria, mal representada por imperfeições dos sistemas políticos, terá efeitos sobre o equilíbrio de todo o Oriente Médio, e talvez sobre uma nova ordem mundial em que possamos até sonhar com a completa extinção dos arsenais nucleares em todos os países. Tudo pode começar por esse acordo.

  1. O seu prestígio entre os setores conservadores no Brasil, professor, é incontestável. Por mais que rejeite ser considerado um político de direita, e certamente não o é, você é bem ouvido pela direita, o que é um ativo precioso para a nossa democracia. E é amplamente respeitado por todas as lideranças conservadoras que são hegemônicas nas comunidades judaica e árabe brasileiras. Nenhum líder expressivo dessas comunidades deixaria de comparecer a uma convite seu para um debate no seu Instituto, em que você lhes proponha papeis junto às suas comunidades para que elas tomem iniciativas em relação aos governos israelense e dos países árabes, inclusive a Autoridade Palestina.
  2. Em tal debate, você poderá dizer, em bom português, que todos entenderão, tudo aquilo que já disse, em inglês para seu grupo seleto de colegas nos “The Elders”, em 2009, 2010 e 2011. Como faltam alguns meses para o seu quarto artigo anual, poderá começar a construí-lo a partir de agora com ações, que poderá compartilhar desde logo com todos os seus companheiros, e especialmente a figura símbolo talvez mais decisiva hoje para a questão Israel-Palestina, Nelson Mandela. Você sabe, pelo filme que assistiu há 6 meses, que há Gandhis na Palestina. Há também Mandelas., que você pode ajudar a libertar, como fez seu colega Jimmy Carter com os brasileiros durante a ditadura.
  3. Com isso, professor, as lideranças da comunidade judaica deixarão de terem ouvidos moucos para os apelos dos movimentos sociais israelenses e palestinos para que latinoamericanos dêem passos à frente, neste ano em que Obama está paralisado pelas próximas eleições e a Europa está paralisada pela crise do euro. E as lideranças da comunidade árabe também perceberão a oportunidade para terem um papel importante para todo o mundo árabe, e também para o mundo islâmico. Trata-se também, professor, pragmaticamente, de negócios, em que o Brasil tem muito a ganhar na disputa desses mercados que, somados, correspondem a uma China. Estamos falando, portanto, de oportunidades estratégicas para o Brasil no rearranjo dos blocos econômicos que se dará logo após a superação das crises financeiras. Temos uma parte que nos cabe nesse latifúndio, e o primeiro passo para o conquistarmos em grande escala poderá ser a sua convocação.
  4. É claro, professor, que você não é escutado por todos os brasileiros, nem por todas as lideranças internacionais. Mas aqueles que não o escutam escutarão um homem que é seu principal adversário e também amigo. Pense na grandeza de um outro passo: este é o quarto telefonema, para o seu sucessor, Lula. Um café no IFHC, seguido por um café no Instituto Lula. Aqueles que não o escutam, professor, escutarão o seu amigo no Instituto Lula, e reverberarão as suas reflexões para bem longe, chegando até mesmo ao Irã, à Síria, ao Hamas e ao Hezbollah.
  5. Trata-se, professor, de você e seu adversário e amigo fazerem aquilo que aprendemos com Itzhak Rabin e Yasser Arafat; “a paz dos bravos”. Bem, professor, não é possível imaginar que esses pequenos movimentos podem levar ao isolamento internacional e doméstico do governo Netanyahu em Israel, e dos extremistas palestinos que boicotarão sempre as iniciativas para a paz?

A sua história, professor, tem nela um grande ativo que nos credencia para esse papel: nossa luta pela anistia, pelo fim da ditadura, e pela construção do quadro institucional democrático que temos hoje. Com um pouco de licença poética, imagino você indo com seu adversário, acompanhado de Chico Buarque, para cantarmos juntos em Israel e na Palestina, o “Apesar de você”, para Netanyahu e os seus radicais e para os palestinos que recusam Israel.

Poderemos fazê-lo aqui em casa, em Porto Alegre, no Forum Social Mundial para a Palestina Livre, que marca o fechamento da janela de oportunidade que teremos neste ano.

Convido-o  a refletir sobre os cenários possíveis, e também a considerar o que essa “paz dos bravos” poderá significar para a nossa política interna brasileira. Será que não poderia dar início a uma banda larga de cooperação para um pacto político interno mais amplo? Consigo imaginar concessões mútuas entre você e Lula que pacifiquem o próximo processo eleitoral, garantam a governabilidade do governo Dilma e a redução da sua dependência da carcomida base aliada, e abram caminho para uma reforma política e um pacto social que desaguem numa Constituinte em 2014.

Já fui longe em minhas alucinações. Mas já que cheguei até aqui, professor, será impensável um cenário no qual esse protagonismo conjunto dos bravos brasileiros ofereça a Obama a projeção de um contexto internacional que o fortaleça para as eleições que enfrentará este ano?

Professor, peço que me perdoe a ousadia e pretensão embutidas nessas palavras, e me coloco humildemente à sua disposição para me redimir de algo em que possa ter me excedido, e/ou para auxiliá-lo no exército de pessoas que tenho certeza que seguirão a direção que você apontar. Nossas raízes ibéricas nos dão a convicção de que tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Respeitosamente

Sérgio Storch

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PS.: este post foi provocado por uma notícia que, por casualidade (será mesmo?) acabei de ler no  jornal “El Paiz”, do Rio, em 13/2/1921, cuja capa dizia : “O senador norte-americano Borah prevê uma nova guerra se as potências não chegarem a um accordo sobre a questão do desarmamento naval”. A coincidência é haver eu perguntado no domingo, em debate na instituição judaica Bnai Brith, a um expert em Direito Internacional Público, sobre a viabillidade de um movimento global para desnuclearizar o Irã através de um acordo global em que Israel também assuma compromissos de se desnuclearizar, tendo como contrapartida não só a do Irã, mas também, para estimular a ambos, uma oferta de metas de cada um dos países que têm a bomba  para reduzirem gradativamente os seus arsenais, até zerarem em 20 ou 30 ou 50 anos etc.

Professor, já viu que este seu admirador é megalomaníaco. Pois então, que tal um quinto telefonema, para Mikhail Gorbachev?

 

A letter to a beloved virtual friend, a young woman in Gaza

sexta-feira, 23 março 2012, 23:48 | Categoria : Conversações, Justiça e paz, Oriente Médio
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To my English-speaking friends: please skip the first 5 lines in Portuguese (they are in attention to the Brazilian friends, cause English is NOT our second language).

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Decidi escrever este post 9 meses após o anterior, no instante em que terminei de ler um post de ontem no blog “Palestine from my Eyes”, de Shahd Abusalama, amiga palestina de Gaza que encontrei na minha caminhada.  Conta a experiência de visitar pela primeira vez Jerusalém e Jaffa, a cidade de sua família. Dedico à Shahd e porisso está em inglês.

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Dear Shahd,

I´ve decided to write this upon reading the wonderful post with your feelings in Jerusalem and Jaffa. I feel happy in being among the first friends with whom you share in real time. I also laughed at your words “Welcome back to Gaza!”, even though you were welcomed with the sound of a bomb.

Your beautiful account resonated so much in my heart that I decided to  record my own feelings. Maybe there´s some meaning in the exact 9 months past since I wrote  “Opportunities within our sight: Brazil to adopt Israel and Palestine”, about the potential for a civil society diplomacy to help both Israelis and Palestinians to reach a just peace.

As I spent so much of these 9 months striving into making some of those ideas come true, Facebook had become a more appropriate media to record those fragmented and stumbling steps, and I stopped blogging. But today I´ve felt moved to do it, because your words brought back to my heart the feelings of when I myself visited Jerusalem 43 years ago for the first time, as a young Jewish man.

At that time – 1969 – the feeling of a Western young Jew was somehow related to that of identification with our people´s freedom and justice. We finally could –  as a people – breathe the air of the land where our history took us to get rid of oppression and persecution we experimented for centuries – indeed millenia – in Europe. A person whom we admire said “If you will it shall not be just a legend”. Those are feelings alien to so many people who have fun with the idea of Palestinians being “an invented people”, symetrically to those who argue that Jews are an invented people. Rationalist bullshit, as you and me know.

This empathy took me to think, as clearly as I had never thought before, on how we Jews and you Palestinians are alike. We both have a long history of pain. Some people would discard this comparison on the grounds of cold numbers: what are seven decades when compared to two millenia? Others might discard it: what the heck can one feel pain on such abstractions?

Those numbers don´t matter. At the scale of the human being, what matters are the 2 or 3 last generations that we as children see or hear the stories about.

My grandchildren will never be able to feel as I do: they´ll receive my narratives as remote historic data with which they have little to do. But at that time – just 25 years after the end of the World War that killed more than 30 million people  - not only Jews – our tragedy was recent enough to make me feel that story as mine. And maybe that´s what takes me to be here writing this to you.

One thing that made our time-separated similarities so clear to me was a coincidental fact today, as  I tried to encourage an older friend (71) to win over his prejudices and start using Facebook. I used a phrase such as “all the knowledge you need for that is in your son and/or in your grandson, so don´t ask where the knowledge is, because it is within your reach”.

That phrase of mine made me remind a phrase of Ernest Hemingway´s (the great American writer and a fighter in the Spanish Civil War against the fascists) in his book “For whom the bells toll”: “never ask for whom the bells toll; they toll for thee”. (quite interesting to learn that phrase´s history, a gift from Google to both of us).

I think that phrase conveys in some sense the spirit of how we liberals and progressives in the West felt then, when the World War tragedy was still so recent.

The generous part of the youth of that time was on the streets combating against the Vietnam war and against Brazilian landlords´ oppression on the overexploited peasants. That brought me an insight: my generation – not only Jews – had been contaminated by a deep tragic sentiment because of violence and oppression 40 years earlier. Not us, but our parents or grandparents had been victims of oppression and abuse. But nevertheless we projected that in those years, as we were solidary with the Blacks in America, with the Vietnamese people and  with Latin America peasants, still oppressed in the 1970s.  That was 40 years ago. Maybe this number has to do also with the 40 years that my ancestors  (and perhaps yours, who knows?) spent wandering in the desert before the new generations could enter the so-called Promised Land, that of milk and honey. It´s taught that God said to Moses: no man with the memory of slavery shall see the land of honey and milk because it can´t be appreciated by whom is embittered).

So, sliding 40 years back and forth, that explains why I  think my feeling as I visited Jerusalem in 1969 was so similar to yours today. We were still living, in our earnest, the reverberations of a decades-long history: those Hemingway´s bells. For us Jews not only decades, but centuries and even millennia. For you,  Palestinians today, you are still in the midst of the tragedy. A few generations have to pass until your grandchildren can feel fully a joy for freedom, without the guilt for those who died for it to be reached. Some of you are lucky enough to feel that smell, as our youths fight together for justice and human rights in Sheikh Jarrah.

You and me are similar also in that you are still living the latest reverberations of that same World War, in which old empires clashed for the last time in history. As we saw this week in Toulouse and constantly in Gaza, both our peoples continue being murdered because of the symmetric fear-inspiring myths, which we haven´t been able to exorcize so far.

Maybe we can sit together some time and study what some of our heroes did, in reaction to the clash of such empires as the German and the British, as it´s told by this story that I found out by chance in a bookstore. Why nobody tells us that? I don´t know. As an old song said, “The answer is blowin´ in the wind”.  For sure there are inconvenient truths for leaders on both sides.

My dear, accept my solidarity again, whatever harsh words you use to describe my people. I am so sure that the day is coming close, in which my people will be able to listen to your Nakba story and your people will be able to listen to our Inquisition and Holocaust stories and both will be courageous enough to call loudly for a “never again” on blaming each other and on false friends symetrically denying each other´s memories.

And then our grandchildren in Israel-Palestine and in our Diasporas we´ll feel like brethren. All starts with being able to listen and feel as you and me have done.

I do believe we´ll embrace each other in the World Social Forum on Free Palestine, here in Brazil, Nov 28-Dec01. Let´s both of us work for that to happen.

Wish you light, peace and love

Sergio

 

 

A oportunidade à nossa frente: adotar Israel e Palestina

segunda-feira, 27 junho 2011, 18:40 | Categoria : Inteligência societal, Política
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Andei estudando. Retomo minha proposta de desenvolvimento de uma diplomacia brasileira para a questão Israel-Palestina, baseada na noção de sociedade em rede. É uma diplomacia não restrita ao que convencionalmente se entende por esse termo (a relação oficial entre governos).

Neste post, o penúltimo  da minissérie, darei um breve panorama do processo de resolução do conflito (nada é eterno!), tratarei dos contornos gerais da proposta de diplomacia em rede e direi como vejo essa oportunidade para o Brasil e por que entendo que é “para o nosso bico”. No próximo e último post, “Garrafas ao Mar”, apresentarei ideias que podem compor essa diplomacia da sociedade em rede e nos posicionar como parceiros de israelenses e palestinos na nova etapa de suas histórias.

Mas antes de entrar na diplomacia: há uma dissonância, não? Como assim, adotar Israel e Palestina? Não são inimigos? Não, amigo, pode faltar pouco para que isso seja coisa do passado. Veja este site de duas ONGs, uma israelense e outra palestina. Pode haver um revertério, mas o presidente Obama não desejará ter tal fiasco ao enfrentar as urnas em 2012. E o tempo corre.

Agora a diplomacia da sociedade em rede. Este é o momento em que tudo é possível, desde a paz definitiva até a explosão de uma terceira intifada e um banho de sangue, que atores como o Irã podem estar torcendo para acontecer…

Depende da somatória de pequenos movimentos, um pra lá, dois pra cá… um passinho da oposição israelense, um passinho da França, um passinho de uma ONG norteamericana, um gesto…

Podemos entrar nesse ballet, e aí vem a proposta. É uma diplomacia não entre os governos (embora possa inclui-los), e sim entre pessoas, pessoas em rede, nas sociedades brasileira, israelense e palestina. E por que não em outras  engajadas no mesmo propósito? Talvez, sem perceber, você já a esteja fazendo: para começar é só convidar um amigo para assistir em casa um filme, por exemplo, “Budrus”. Repare a rede: essa ONG, Just Vision, formada por israelenses e uma brasileira, fez o filme. Assisti e vi no site que há uma estratégia (e até um manual) para sua utilização. Comprei a ideia, pus no meu Facebook, pus neste post. Você leu, comprou o filme, e contaminou mais um amigo com uma nova compreensão da dinâmica desse conflito e da humanidade de seus personagens. Agora vamos multiplicar isso, e haverá a emergência de novos tipos de ações, e palestras, e exibições em escolas, e divulgação na rede de funcionários da multinacional XYZ, de repente o Roberto Carlos que vai pra lá em agosto, e gente se conhecendo, e negócios surgindo… esta é a diplomacia em rede.

E por que da sociedade em rede? Porque em dados momentos esse processo deixa de ser apenas entre indivíduos e passa a envolver instituições: ao ler o jornal (uma instituição)  as pessoas já terão outros filtros; a diretoria de uma instituição pode ser pressionada para assumir outras posições; uma empresa multinacional pode integrar esse debate em seu programa de responsabilidade social, já que tem colaboradores em Israel e em países árabes. Na hora de uma enquete ou de uma eleição, maiorias viram minorias, e minorias viram maiorias.

Ou seja, podemos ter uma diplomacia construída por uma pluralidade de atores individuais e coletivos da sociedade brasileira, em conexão com atores individuais e coletivos das sociedades israelense e palestina. A força de tal diplomacia pode agregar força à diplomacia feita institucionalmente, nos momentos em que elas se articulem.  Não estou inventando, e sim aplicando conceitos que hoje borbulham na chamada ciência das redes e nas novas teorias organizacionais (Clay Shirky, “Institutions and Collaboration”, 2005).

Por que isso é uma oportunidade para o Brasil?

O motivador da proposta é a minha percepção de uma janela de oportunidade para nós, brasileiros, termos um protagonismo diferenciado, compreendendo nossas empresas, governos e Terceiro Setor. Ela se dá no contexto de 3 a 18 meses, neste momento do processo de pacificação entre Israel e Palestina que, embora esteja muito próximo de um final feliz, empaca em impasses e riscos que requerem pressões externas. Várias lideranças da sociedade israelense  têm feito manifestações apelando para a pressão internacional , uma vez que o governo Netanyahu tem se mostrado inapto para finalizar as negociações que levarão à criação do Estado Palestino. A sociedade israelense está cindida. O governo nacionalista vem procrastinando as negociações para o estabelecimento do Estado Palestino, e os palestinos provavelmente recorrerão à Assembléia Geral da ONU, em setembro. Mas 48% da população da população israelense apóia a criação do Estado Palestino antes de setembro. Em abril uma frente de lideranças políticas e intelectuais, incluindo militares de alta patente, lançou, à revelia do governo, a Iniciativa israelense de Paz , ecoando a Iniciativa Árabe de Paz lançada em 2002 e reafirmada em 2007 (o plano saudita).

O fator que vem retardando o desenlace pacífico dessa história de 63 anos de conflitos é a inflexibilidade do governo Netanyahu em relação à suspensão da construção de moradias nos territórios ocupados. Seu comportamento é ostensivo: na véspera da visita do presidente Shimon Peres à Casa Branca, o governo anunciou novo lote de construções , e exatamente em Jerusalém Oriental, um dos pontos mais nevrálgicos nas negociações.

Mas por que nós?

Mas por que nós, brasileiros, que temos tantos problemas domésticos mal resolvidos, podemos achar que temos algo a contribuir naquele lugar tão complicado? Minha resposta a esta pergunta freqüente e fundamental começa por propor um olhar positivo para a questão Israel-Palestina, em vez de encará-la como um grande imbróglio insolúvel.

As oportunidades para o Brasil

Naquela terrinha do tamanho de Sergipe há um espaço de oportunidades a serem cultivadas para gerar benefícios por muitos anos, para nós e para israelenses e palestinos.

  1. Israel, esse pequeno país de 7 milhões de habitantes, com algumas das melhores universidades, hospitais e laboratórios de pesquisa do mundo, nos interessa. Como sugerem os depoimentos no livro “Nação Empreendedora”  (“Startup Nation – The Story of Israel´s Economic Miracle”, de 2009), Israel é o lugar onde toda empresa inovadora deve ter um pé. Mais: por ser pequeno, Israel é também um país aberto ao comércio exterior, e suas empresas têm o DNA da extroversão para todas as formas de parcerias com empresas de fora.
  2. A Palestina, embora pequena e pobre, também nos interessa, por outros motivos: os palestinos adquiriram, pela própria tragédia, um glamour único nos mundos árabe e islâmico , e com isso eles têm o potencial de serem uma ponte para todo esse mercado de 1 bilhão de habitantes. Os palestinos se destacam como o povo mais intelectualizado e mais moderno do mundo árabe (talvez até mesmo como fruto da convivência de 100 anos com um povo europeizado). A diáspora de 7 milhões de palestinos está presente em todos os países árabes, e nela estão os engenheiros, cientistas e médicos mais valorizados. Temos aqui um capital humano de 50.000 palestinos, que têm vasos comunicantes com os que vivem hoje no que será o Estado Palestino. Os empreendedores dessa sociedade de 3,8 milhões que lá vivem estarão ávidos por parcerias que tragam conhecimento e gestão para acelerar o amadurecimento de suas empresas.
  3. As instituições do novo Estado Palestino são um mercado para todas as inovações que temos feito em nossos governos: Programa Saúde da Família, governo eletrônico, voto eletrônico, logística de transportes, Declaração de Imposto de Renda, Bolsa Família etc. Haverá financiamentos mundiais para a construção do novo Estado, cujo caráter democrático é estrategicamente importante para o Ocidente. Esse tratamento preferencial a ser dado ao Estado Palestino propiciará oportunidades de cooperação em que somos bons candidatos para transmitir e aprender com experiências do lado de lá. E pense: quais são os benchmarks de governo em que eles querem se basear? os sírios? talvez os turcos. Certamente não os americanos. Mas por que não os brasileiros?
  4. As necessidades de infraestrutura serão significativas. Vale como exemplo o projeto do corredor que ligará a faixa de Gaza à Cisjordânia e integrará todas as suas principais cidades, com investimento estimado pela Rand Corporation em US$ 33 bilhões em 10 anos. Outras ainda maiores estão no gerenciamento dos recursos hídricos, no sistema educacional etc.

Enfim: há um surto de desenvolvimento econômico pela frente. Mas veja o que diz  a Iniciativa Israelense de Paz (31/3/11), nos seus Princípios de Desenvolvimento Econômico:

“Com base em apoio economico significativo provido pela comunidade internacional, as partes implementarão projetos de cooperação regional em larga escala, para assegurar a estabilização, a viabilidade e a prosperidade da região, e paraobter utilização otimizada dos recursos de energia e de água para o benefício de todas as partes.  Esses projetos melhorarão a infraestrutura de transportes, a agricultura, a indústria e o turismo regional, respondendo assim ao perigo crescente de desemprego na região. No futuro, as partes criarão o Bloco para o Desenvolvimento Econômico do Oriente Médio (convidando a participação de todos os países do Oriente Médio), com vista a conquistar um status especial junto à União Europeia, aos Estados Unidos e à comunidade internacional”.

Mas é para o nosso bico?

Sem dúvida alguma. Mesmo que os brasileiros enquanto sociedade não tenhamos ainda assimilado a plena compreensão do que já somos, os dados que já existem em estudos sobre as multinacionais brasileiras são eloqüentes sobre “o nosso bico”.

Além das óbvias Gerdau, Odebrecht, Natura, Petrobras e Vale, há dezenas de outras que vêm se globalizando através de fusões e aquisições, e que hoje operam mundialmente.

Já que falei de infraestrutura trago um exemplo pertinente que conheço de perto: a Logos Engenharia, comprada e associada à holandesa Arcadis, tem hoje 200 funcionários na construção do porto de Omã. A Logos/|Arcadis não poderá ter 10 vezes mais em soluções de engenharia e logística para a Palestina?

E um exemplo em indústria de bens de consumo: uma empresa como a Natura, afiada na gestão de um exército de 1 milhão de revendedoras, tem o tipo de atividade ideal para gerar empregos femininos para mulheres ainda presas ao lar, como deve ser grande parte das mulheres palestinas.

Empresas como essas que citei, ao lado de muitas outras, são “o nosso bico”, além do espaço enorme para pequenas e medias empresas a serem formadas para produzir na Palestina e exportar e importar tirando proveito da forte presença que temos da língua árabe no Brasil, e também para agregar valor às inovações israelenses com brasileiros que falam hebraico.

O Brasil já tem presença forte e concentrada em regiões como os países africanos de língua portuguesa, mas o potencial que existe para nós no Oriente Médio em círculos concêntricos em torno de Israel-Palestina merece ser bem avaliado, porque talvez seja o de melhores oportunidades.

E então,  o que fazer?

Podemos atuar para mudar, pouco a pouco, as opiniões nas comunidades envolvidas que estão ao nosso lado, que têm conexões lá no teatro do conflito. No próximo post direi o que penso de algumas estratégias que podem atrair o interesse de empresas, governos e do Terceiro Setor, e nas quais possamos praticar a nossa diplomacia em rede, eu e você.

Mas o primeiro passo é compreender o momento.

Revisitando uma década de violência

No ano 2000 o conflito Israel-Palestina poderia ter se encerrado, e esses 11 anos  de violências e sofrimentos teriam sido uma década de paz e prosperidade. O que aconteceu? Foi o último ano do governo Clinton. O líder palestino Yasser Arafat não pôde, ou não quis, aceitar as condições oferecidas por Israel sob a égide dos Estados Unidos em Camp David. E ao final do ano não havia mais tempo, pois foram eleitos Bush nos Estados Unidos e Sharon em Israel. Você que acompanha a mídia sabe o que aconteceu: homens-bomba, invasão de Gaza, caça aos terroristas fazendo vítimas civis, e aos pouquinhos um processo lento de deslegitimação da existência de Israel. Nos Estados Unidos, o governo Bush. Acho que a metáfora do sapo na fervura, no meu post “Gaza, sensemaking e inteligência coletiva”, de 2009″, retrata bem a situação.

Em 2011 estamos num outro momento, com oportunidade semelhante, mas com algumas diferenças essenciais:

  • há mais tempo no calendário eleitoral norteamericano. Clinton promoveu Camp David às vésperas das eleições que perdeu para Bush. Obama está adiantado em 1 ano. Por outro lado, Israel estava com o partido trabalhista, e agora está com a direita nacionalista, que não hesita em chantagear Obama com o voto de 2012. Obama tem na mão a oportunidade mais favorável de encerrar o conflito, mas não pode perder votos à direita. Há cartas na manga: a França entra em cena, com o plano de Genebra requentado mais uma vez. E por que não o Brasil também?
  • pela primeira vez em 100 anos de convivência entre Israel e os árabes, há a disposição dos países árabes em reconhecer Israel, formulada na Iniciativa Árabe de Paz (o plano saudita, apresentado em 2002 e novamente em 2007).
  • há as incertezas das revoluções da Primavera Árabe. Curioso: Netanyahu as viu como ameaças, mas a outra metade da sociedade israelense a viu de forma positiva.
  • a frente formada em 2001 entre os líderes israelenses e palestinos que negociaram o que veio a ser chamado Acordo de Taba, em torno das questões mais sensíveis do conflito: fronteiras, refugiados, Jerusalém. Essa frente construiu a Iniciativa de Genebra, que consolidou esses acordos em 2003, e que continua unida. Os acordos têm hoje o apoio de 56% da população palestina, e de  54% da população israelense. Para apoio a partes do pacote de Genebra, os apoios têm percentuais ainda maiores.
  • A década passada teve a ascensão do Hamas, facção radical que não se dispõe a reconhecer Israel. O Hamas venceu eleições e passou a governar a faixa de Gaza. A popularidade do Hamas está em declínio.
  • A resistência palestina contra o ocupante israelense (mas com apoio de setores israelenses anti-ocupação) vem ensaiando e tendo sucesso com a estratégia de resistência não-violenta (“Waiting for Gandhi” – Nicholas Kristof no New York Times, 10 july 2010). Ainda nesta semana tivemos a notícia de uma vitória da aldeia de Bil´in que forçou o Exército israelense a mudar de planos. O filme Budrus é eloquente sobre isso.
  • setores da sociedade israelense têm apoiado essas formas de resistência, dessa forma facilitando aproximações pontuais entre israelenses e palestinos. A cinematografia israelense é abundante em produções que ilustram isso (“Lemon Tree”, “Valsando com Bashir”, “Promessas de um novo mundo”, o já citado “Budrus” e muitos outros).

Não é mais correto considerar que ser pró-palestino é ser anti-israelense, ou vice versa. Aliás, criou-se um forte lobby judaico nos Estados Unidos, que destaca a ruptura dessa ideia superada: é pró-israelense, pró-palestino. E esse lobby é assumidamente sionista, em eco com grande parcela da sociedade israelense.

 

Bem, vamos falar de coisas práticas no próximo post.

Leia os posts anteriores desta minissérie:

  1. “Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede”.
  2. “Oriente Médio, um contexto de novas possibilidades”
  3. “Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender”.
  4. “Empreendedorismo e sua ancestralidade”

 

Empreendedorismo … capital intelectual… Oriente Médio – 4

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Leia os demais posts desta minissérie:

  1. “Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede”. “É um mercado sedento de serviços de alto valor agregado. Nós falamos árabe, nós falamos hebraico. Nós temos o melhor voto eletrônico. Nós ensinamos pipoqueiros a fazerem fluxo de caixa. Nós temos engenharia. Temos também e-business. Nós somos insuspeitos para vendermos paz e democracia, enquanto os outros vendem armas.
  2. “Oriente Médio, um contexto de novas possibilidades” onde falei da onda de mudanças que varre o Oriente Médio, e da inexistência de um futuro, que está por ser construído por muitos atores, e a nós brasileiros, na nossa sociedade em rede, cabe um papel. Qual a parte que nos cabe neste latifúndio?
  3. “Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender”. Conversando com minha nora sobre as riquezas do Brasil em capital intelectual. As carências no atendimento às necessidades de nossa população não justificam o papel secundário que desempenhamos na exportação de nossa inteligência.

4. Empreendedorismo e sua ancestralidade

O velhinho que meus filhos aprenderam a chamar de “tio Carlinhos” twittou em 1845 essa frase que viria a ser conhecida como a “quarta tese de Marx sobre Feuerbach”. Dizia isso, sem ultrapassar os 140 caracteres:

“Filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; mas o que importa é transformá-lo”.

O Schumpeter recebeu o tweet 100 anos depois, e os seus “curti” e comentários estão lá no GhostBook.

Simples assim. Intelectual não entende de fazer, entende de pensar. Transformar tem a ver não com intelectuais, mas com empreendedorismo.

Sou meio atrevido e voluntarista. But I´m not the only one. Acredito na antropóloga Margaret Mead:

“  Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas engajadas e comprometidas possa mudar o mundo. De fato, nada mais além disso pode tanto…” (Margaret Mead)

_________     pausa    __________

Im ein ani li mi li?

Como Raul Seixas, também nasci há 10.000 anos atrás. Você também, concorda? Habemus historia.  Lá atrás eu aprendi com um sábio judeu , Hilel, o seguinte:

“Se não for eu por mim, quem será? (“Im ein ani li, mi li”) E se não for agora, então quando?” E, se somente por mim, o que eu sou? (começou a história de sustentabilidade). E, se não for agora, quando?”

Nada mais do que uma encarnação antiga do Vandré:

“Vem, vamos embora,

que esperar não é saber,

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer”.

Hilel era um rabino tão importante que dele se conta a seguinte historinha: chegou a ele um gentio, depois de passar pela loja de um concorrente, um tal de Shamai, por quem o gentio não tinha sido muito bem atendido. Perguntava o gentio ao bom Hilel: “Rabino, tenho pressa. O senhor consegue me explicar em conversa de elevador: o que é o judaísmo”? E respondeu-lhe o mestre, olhando para o marcador dos andares: “Não faças aos outros o que não queres que te façam. Todo o  resto são detalhes”.

Sim, dizem que foi ele. O Shamai, da loja vizinha, detestava o Hilel. Detesta até hoje. Entre outras coisas, porque o Hilel gosta do povo de Gaza (falaremos disso no próximo post).  Hilel gosta de todo mundo. Ele tinha suas partes preferidas da Torá, que falavam da solidariedade aos vizinhos, do amor ao próximo. O Shamai tinha lido outras partes da Torá, em que um Deus vingador mandava matar os inimigos.  O Hilel não dava bola para essas partes.

O Hilel não quer que seus discípulos façam ao povo de Gaza o que não querem que lhes façam. E já que vamos falar de Gaza no próximo post, é bom saber que lá em Israel tem a turma do Hilel e a turma do Shamai. Os do Shamai estão no governo fazendo (e falando – mas se fosse só falando tava bom…) bobagens. Os do Hilel fazem sinfônicas e escolas com membros israelenses e palestinos, além de proteger aldeias palestinas das demolições da turma do Shamai .  Os do Hilel gostam de conversa, eles sabem que conversa é a base do aprendizado e do conhecimento. Com os do Shamai, não tem conversa. Veja o premiado documentário Budrus, dirigido pela brasileira Júlia Bacha (ói nóis, de novo, exportando capital intelectual…)  Taí, Israel tem dessas coisas que o Irã e a Líbia não têm.  Quer mais sobre Hilel e Shamai?

Pois é: o velho Hilel ensinava, além disso, empreendedorismo.   Como o Vandré e o tio Carlinhos.  Se o Hilel fosse explicar o que é empreendedorismo numa conversa de elevador, usaria o “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” do Vandré.

Khalil Gibran, o grande poeta do mundo árabe e muçulmano, ensinava coisas parecidas. Podem ser resgatadas. Saindo um pouquinho da história do empreendedorismo (no próximo post voltaremos a ela), faço um comercial: a turma do Hilel no Brasil começou, num evento  da rede Judaísmo Humanista que fizemos  6ª feira passada, com a Analu Lacombe, pesquisadora e contadora de histórias  (economia criativa em microempresas: www.fazeconta.art.br contando histórias da dobradinha Martin Buber (um Hilel moderno)  e Khalil Gibran. E neste domingo a Analu estará num bistrô contando Clarice Lispector.

Bem, espero ter sido convincente lá atrás sobre as potencialidades do capital intelectual do Brasil nas relações com o Oriente Médio. Para desfrutarmos os benefícios, é necessário empreendedorismo da sociedade brasileira em rede.  SE NÃO AGORA, QUANDO?

Falta agora dizer: por que o Brasil adotar Gaza?

Vou dizer, mas agora darei um intervalo de 3 dias para que você possa fazer uma viagem “De Volta ao Futuro”, e ler “Gaza, sensemaking e inteligência coletiva”), que escrevi há 2 anos. É o preâmbulo para o próximo post, e você poderá se distrair com um passeio pela Gestão do Conhecimento.

Não deixe de visitar nessa viagem o filminho que está no post: a turma de Hilel cantando e dançando com a turma do Khalil Gibran. Estão abertas as portas para nosso samba e nossa capoeira em Gaza. O mercado também para nossa economia criativa…

Bem, se você chegou até aqui, agora aguente firme, pois faltam apenas mais dois posts.

5. “Brasileiros comem pelas beiradas. Vamos adotar Gaza?”

6.  “Jogue também sua garrafa ao mar”

3. Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender

terça-feira, 22 fevereiro 2011, 12:23 | Categoria : Inteligência Coletiva, Inteligência societal, Política
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Leia os demais posts desta minissérie:

  1. “Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede”. “É um mercado sedento de serviços de alto valor agregado. Nós falamos árabe, nós falamos hebraico. Nós temos o melhor voto eletrônico. Nós ensinamos pipoqueiros a fazerem fluxo de caixa. Nós temos engenharia. Temos também e-business. Nós somos insuspeitos para vendermos paz e democracia, enquanto os outros vendem armas.
  2. “Oriente Médio, um contexto de novas possibilidades” onde falei da onda de mudanças que varre o Oriente Médio, e da inexistência de um futuro, que está por ser construído por muitos atores, e a nós brasileiros, na nossa sociedade em rede, cabe um papel. Qual a parte que nos cabe neste latifúndio?

3. Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender

Dirão que deliro. Já sei. Porisso, em vez de um jargão que às vezes encobre o nada, resolvi traduzir em miúdos, aproveitando a conversa que tive com minha nora no sábado passado, às 5 da madrugada. Eu a levava com meus netos, da Granja Viana para a despedida no aeroporto. Luiz, de 4 anos, cantando “O orvalho vem caindo” (o bichinho gosta de Noel), curtindo o clarear do dia, o frescor do ar pela janela, e eu conversando com ele sobre as cores mutantes das nuvens com os raios do sol. Momentos de eternidade num diálogo leve e gostoso:

- Tati, estou escrevendo um post dizendo que o Brasil deve adotar Gaza. O Brasil deve ajudar o povo de Gaza.

- Sérgio, você já viu a miséria que existe no Brasil, aqui, agora? Como é que você tem essas idéias de que o Brasil deve ajudar outros países? (parêntesis: a Tati não é a única a expressar essa impaciência com minhas “viagens”. Aprendi a conviver e me divertir com a imagem de “desfocado” daquele personagem do Robin Williams no filme do Woody Allen. Nas baladas com os filhos damos muita risada com isso).

- Tati, nós temos, por exemplo, o SUS (ver  Licoes aprendidas SUS-SUSP)

- Sérgio, você já precisou alguma vez do SUS? Você já teve que ficar dias na fila para poder agendar uma consulta médica para daqui a alguns meses?

- Tati, o SUS não funciona mesmo. Mas é porque o governo, em vez de contratar médicos, fica acumulando reservas em dólar, o que custa muito caro, e tem aumentado a concentração de renda nas mãos dos 1% mais ricos (ninguém diz isso, mas veja neste artigo do Sílvio Cacciabava, no Diplô). Com essa grana toda, que os mais ricos então gastam em helicópteros, griffes e na Daslu, poderíamos ter mais e melhores médicos (e melhores professores e policiais mais satisfeitos). O SUS não funciona mesmo, mas não é por causa do SUS. Todo mundo sabe que faltam médicos e a formação deles se deteriorou. Faz parte da dívida social que no tempo dos tucanos os petistas denunciavam. Agora ninguém denuncia a dívida social. Mas por enquanto deixe de lado  a falta de médicos . O SUS, como sistema, tem muita inteligência, estrutura, muita gente pensou junta durante muitos anos até conseguirmos ter o SUS. É um dos melhores do mundo. Nós temos isso para dar e vender.

- Sérgio, lá onde a gente mora (Lençóis, na Chapada Diamantina), não tem um médico. Por que eu vim ter a Marina aqui em São Paulo? Como é que o Brasil vai dar ou vender, se não tem nem pra gente?

- Tati, o Brasil tem inteligência pra dar e vender. E não é só o SUS. Os povos do Egito, do Iêmen, da Líbia, da Jordânia, da Palestina, e de outros países da região, estão percebendo que precisam de democracia, que podem ter direito à democracia . O Brasil pode ajudar. É verdade que ainda não sabemos bem o que é democracia, até o nosso voto é torto, mas em algumas coisas evoluímos bem. Nosso voto eletrônico é o melhor do mundo, põe no chinelo os sistemas capengas dos Estados Unidos.

- Tem mais, Tati. O Brasil tem um dos melhores sistemas de apoio às micro e pequenas empresas do mundo. Eu li um artigo sobre o desemprego no Egito, que conta como o trânsito no Cairo é um caos pior, e com muito menos carros do que São Paulo, todos buzinando o tempo todo, sem mão e contramão. Nós temos engenharia de trânsito. Imagine o SEBRAE ir lá e ensinar ao Egito o que levou décadas para aprender sobre o desenvolvimento do empreendedorismo. Lembra do Muhammad Yunus, que ganhou o Nobel da Paz por ter criado o microcrédito que transformou a vida de milhões de mulheres que eram desempregadas? Funcionou, não funcionou? O Brasil copiou bem, melhorou, e tem isso também pra ensinar.

Bem, a conversa estava ótima, mas tivemos que encerrar para encostar o carro. Meu filho chegava em outro carro, já estavam atrasados para o vôo, e aqueles abraços apertados e beijos, risada com as crianças, e voltei com as saudades já batendo (êta sentimento bom, tão brasileiro), pensativo, com sorriso nos lábios o tempo todo, enquanto tocava no rádio “Tente outra vez”, de Raul Seixas. Brasileiro tá o tempo todo tentando outra vez.

Saravá, norinha querida, suas perguntas me fizeram explicar para a sua compreensão o que quer dizer capital intelectual, sem usar o  jargão dos iniciados. E fiquei feliz em lembrar no caminho de volta a goiana Cora Coralina:

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina..

É isso aí, Tati, isso é tão brasileiro:

“Mulher rendeira, tu me ensina a fazer renda, e eu te ensino a namorar”.


Aguarde os próximos capítulos:

  1. “Empreendedorismo e sua ancestralidade no Oriente Médio”. Falarei do empreendedorismo desde o sábio Hilel, passando pelo tweet do tio Carlinhos em 1845, raspando por Schumpeter e chegando ao Geraldo Vandré. Gestão do conhecimento tem que dar samba…
  2. “Brasileiros comem pelas beiradas. Vamos adotar Gaza?”
  3. “Jogue também sua garrafa ao mar”

Continue comigo…

Empreendedorismo … capital intelectual… Oriente Médio – 2

Leia os demais posts desta minissérie:

  1. “Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede”
  2. “Oriente Médio, um contexto de novas possibilidades”
  3. “Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender”
  4. “Empreendedorismo e sua ancestralidade no Oriente Médio”
  5. “Brasileiros comem pelas beiradas. Vamos adotar Gaza?”
  6. “Jogue também sua garrafa ao mar”

Oriente Médio e oportunidades para o Brasil

Mudanças profundas no Egito após 60 anos do fim do colonialismo britânico. Inicialmente décadas de um nacionalismo escorado na demonização de Israel, o inimigo eleito por Nasser (um Chávez na época em que os Chávez ainda não eram patéticos). Após as derrotas militares em 1967 e 1973, outras décadas de ditaduras  que mantiveram seu povo na miséria, de forma análoga a quase todos os países árabes.

Detalhe significativo da crise do Egito atual: não se falou em Israel.  Não há mais a culpa do outro, aquele que deve ser eliminado. Um salto para a maturidade de um povo que deixa de precisar de um Pai Protetor. Agora é a busca de transformações internas (Roger Cohen, “Os árabes e o fim da vitimização”, 4/2/11).

Não é aqui o lugar para aprofundarmos essa história. Nem é minha competência. Mas meu guru na ciência das redes, Augusto de Franco, encanta ao dizer que “eu guardo meu conhecimento nos meus amigos” e porisso não hesito em brindar os leitores com a excelente síntese produzida pelo querido professor Henrique Rattner – “Fogo e tempestade no mundo árabe”, do qual tomo emprestado o parágrafo a seguir:

“A onda de protestos e manifestações que varre o mundo árabe proporciona ao ocidente a oportunidade de mudar sua atitude de hipocrisia de apoiar com bilhões de US dólares e fornecimento de armas sofisticadas aos regimes claramente obsoletos, necessitando urgentemente de reformas profundas. O pêndulo da História está em pleno movimento, evidenciando ventos de mudança no mundo árabe, inclusive nas monarquias reacionárias da Arábia Saudita, dos Marrocos, da Jordânia e dos Emirados”.

Dezenas de jornalistas, analistas políticos e de relações internacionais nos trarão seus cenários de futuro nas próximas semanas. Mas a sensibilidade dos artistas é portadora do pensamento complexo, que admite o contraditório e rompe com a lógica aristotélica do “Terceiro Excluído” (“ou é isso OU aquilo, não dá para ser isso E aquilo”), com a qual sofremos lavagem cerebral ao passarmos pela escola e crescermos no mundo do trabalho.

E os artistas sabem que “a vida vem em ondas, como o mar” (Lulu Santos). Com todas as análises que receberemos dos analistas, a síntese do que virá no Oriente Médio depende de fatores que somos incapazes de prever.  O mesmo Roger Cohen, do New York Times, avisa que esse Fla-Flu pode dar tanto Teerã de 1979 quanto Berlim de 1989 .

Os analistas nada ingênuos da CIA, do Mossad e de outras agências de inteligência produziram milhares de informes nos últimos anos, e apesar dissoos seus governos não estavam preparados para os acontecimentos atuais no Egito e nos demais países para onde a revolução democrática árabe se irradia.  Estamos na era da economia da atenção. Inteligência não é ter a informação, é dar atenção à informação relevante. Estava na cara para todo o mundo que ali havia um caldeirão prestes a explodir, mas o que se costuma chamar de “inteligência” mostrou-se incapaz de processar os sinais fracos que estavam à vista para todos. Por que? Pedirei ao amigo Frédéric Donier, expert no assunto, que venha comentar isso aqui com link para seu blog.  É dos bons. Não deixe de ler os comentários, pois também a minha inteligência está nos meus amigos.

Construindo o futuro

Futuro não existe. Ele pede para ser construído. Como ele não está escrito nem nas estrelas nem nos informes dos analistas nem nas teses de doutorado, é razoável presumir que neste futuro do Oriente Médio haverá, para os interesses brasileiros, um espaço ainda a ser construído. E nós somos atores neste processo. Ou não. Depende não de intelectuais, e sim de empreendedores (no sentido lato de empresas, agências de governo, ONGs, países… empreendedores).  Bem antes de se criar essa palavra estranha (“empreendedorismo”) a quarta tese de Marx sobre Feuerbach (1845) já falava disso:  “Filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; mas o que importa é transformá-lo”. O velhinho é atual.

Falarei no próximo post sobre as oportunidades que vejo para o Brasil na conquista de um mercado para serviços nobres produzidos pelo nosso capital intelectual. Ou seja, pego o gancho para desde já recorrer a parte desse capital intelectual: a riqueza da nossa poesia e da nossa música, que perguntam  QUAL É A PARTE QUE NOS CABE NESTE LATIFÚNDIO?

Veremos no próximo capítulo: amanhã mudamos de marcha…

Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede

quinta-feira, 17 fevereiro 2011, 21:56 | Categoria : Cultura, Inteligência Coletiva, Inteligência societal
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Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede

Meus primeiros posts em minissérie. Eram longos. Agora vamos por partes… estou aprendendo.

Aplico à nova conjuntura no Oriente Médio o meu tema de sempre: a inteligência societal. Como podemos fazer sentido (sensemaking) rapidamente das oportunidades que esse novo quadro oferece para o Brasil? Como podemos nós formular uma diplomacia de novo tipo, em rede, em sintonia com as novas formas de organização da Sociedade em Rede possibilitadas pela tecnologia? Como podemos nós, cidadãos, empresas e instituições públicas e privadas no Brasil, tirar partido de nosso capital intelectual e de nossos ativos intangíveis para disputar mercados? De novo, falarei de samba.

É um mercado sedento de serviços de alto valor agregado. Nós falamos árabe, nós falamos hebraico. Nós temos o melhor voto eletrônico. Nós ensinamos pipoqueiro a fazer fluxo de caixa. Nós temos engenharia. Nós somos insuspeitos para vendermos paz e democracia, enquanto os outros vendem armas. A marca Brasil tem esse diferencial. Mas temos que ser rápidos, pois na política não existe vácuo.

A minissérie tem 5 partes, uma a cada dia. Fique ligado. Divulgue. Veja qual é a parte que te cabe neste latifúndio. Aja. Se não puder fazer nada, jogue também a sua garrafa ao mar.

  1. “Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede”
  2. “Oriente Médio, um contexto de novas possibilidades”
  3. “Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender”
  4. “Empreendedorismo e sua ancestralidade no Oriente Médio”
  5. “A oportunidade à nossa frente: adotar Israel e Palestina”
  6. “Jogue também sua garrafa ao mar”  (ainda matutando)

Finalizo com uma pequena célula  do nosso DNA de economia criativa com que podemos chegar ao Egito e a todo o Oriente Médio, comendo pelas beiradas.  A poesia de Chico explica o que os serviços de inteligência não foram capazes de prever:

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração”

Amanhã tem mais.

5ª Disciplina, samba e o “recall” dos parlamentares

Assisti ontem ao vídeo “O Mestre da Vida” . Um velho artista ensina um jovem a olhar. Lembrou-me de um artigo de crítica cinematográfica que dizia que a função do cinema é a educação do olhar. Saramago falava de “olhar com olhos de ver”. NÓS NÃO SABEMOS OLHAR.

O ano passado viu o 20º aniversário do livro “A Quinta Disciplina – a Arte e a Prática das Organizações que Aprendem”, de Peter Senge. Não é um aniversário qualquer: o número 20º me evoca coisas monumentais, como o XX Congresso do PCUS, em 1956, quando os crimes de Stalin foram denunciados, pela primeira vez.  Para tudo pode haver uma primeira vez. O Ficha Limpa teve a sua primeira vez. A invasão do complexo do Alemão foi a primeira vez.

O que há de especial com a Quinta Disciplina? É a disciplina de olhar e ver sistemas. Embora visto como pioneiro no conceito das “organizações que aprendem” – e expandem continuamente a capacidade para criar o seu futuro –  Senge foi pioneiro mesmo ao trazer à luz a Quinta das cinco disciplinas (veja aqui as cinco) com que ele caracterizou essas organizações: o raciocínio sistêmico.


Respire fundo e engate a primeira marcha só por 15 segundos (depois você relaxa), pronunciando palavra por palavra: segundo a Quinta Disciplina, o raciocínio sistêmico é a técnica de modelagem e simulação de sistemas com ciclos de causalidade não-linear e com feedback retardado.

Complicado? Não.  Só um pouquinho pedante:-)

Fica fácil de entender se lembrarmos o movimento de sanfona que acontece num congestionamento: quando o semáforo abre e fecha, a fila espicha e encurta, fazendo os apressadinhos buzinarem. O acontecimento da buzina ( um evento) é conseqüência do ciclo do semáforo (um fato estrutural) mais o tipo de buzinas que nenhum legislador ainda lembrou de proibir (outro fato estrutural), através de um efeito reflexo que todos conhecemos: se demora mais que 2 segundos para andar, um apressadinho já buzina (é um padrão de comportamento: a estatística garante que, na distribuição normal, sempre haverá no entorno um dos 5,78% de estressados (as) que agem desta forma predatória).  Sacou? O raciocínio sistêmico levará você a não revidar com a buzina, nem xingar, e talvez a bolar uma campanha para os estressadinhos. Se você for bem sistêmico mesmo, poderá lançar no Facebook não um inócuo “sou contra isso ou aquilo”, mas um “apóie um projeto de lei de iniciativa popular para regulamentar as buzinas”, ou algo semelhante.

A Quinta Disciplina ensina a distinguir eventos, padrões comportamentais e estruturas que os determinam. Não é coisa só para nerds nem para matemáticos. HÁ POETAS QUE VÊEM SISTEMAS:  “Ao rio que tudo arrasta se diz violento; mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem” (Bertold Brecht).  Lição de casa: lembre você de sambas que vêem sistemas.

Eventos, padrões e estruturas

É isso: VER SISTEMAS EMPODERA. E dá para equacionar problemas de enorme complexidade.

Embora tão antiga – 20 anos, ou 40, ou 50 (pois o primeiro paper de Forrester sobre dinâmica de sistemas é de 1961) – a Quinta Disciplina é bem pouco assimilada. E é assim mesmo, pois na história da aprendizagem as fichas não caem, elas descem, devagarinho: cognição tem viscosidade. Ótimo! Pois estou promovendo o curso “Revisitando o olhar sistêmico da Quinta Disciplina”, com Niraldo Nascimento, pesquisador do CEFTRU – Centro Interdisciplinar de Estudos em Transportes, da UnB, e novo presidente da seção brasileira da System Dynamics Society. Será em 23/2. 25/2. Ainda não está no site, mas você pode reservar desde já no Fale Conosco. Empodere os líderes de sua empresa com a capacidade de VER SISTEMAS.

Por que celebrar o 20º aniversário da Quinta Disciplina? Ora, como diz o meu frei sistêmico Leonardo Boff:  “todo ponto de vista é a vista, de um ponto” (“A águia e a galinha”).

O meu ponto de vista brota de uma semente plantada há 20+20 anos, na minha encarnação de estudante de engenharia, pelo professor Claus Warschauer, de Programação e Controle da Produção. Vi em sua aula pela primeira vez, em 1971, o que viria a ser o Jogo da Cerveja, que hoje, com as maravilhas da tecnologia, tornou-se  um tremendo artefato no treinamento de executivos para o raciocínio sistêmico. Você poderá ver isso no curso do Niraldo, e levá-lo também para dentro de sua empresa.

Pois então celebro, seguindo o conselho do meu rabino sistêmico, Abraham Heschel (que dizia “orar com os pés” quando marchava com Luther King na Marcha dos Direitos Civis), cuja alma vem me sussurar: “Ingale (menininho, em ídishe):  celebrar é contemplar a singularidade do momento e realçar a singularidade do ser. O que foi não voltará a ser novamente. Celebração é um estado ativo, um ato de expressar reverência ou apreciação. Celebração é uma confrontação, que dá atenção ao significado transcendental das tuas ações.”

Se pensar na árvore genealógica das idéias que me formaram, vejo Peter Senge como um de meus pais intelectuais, ao lado de Erich Fromm (minha fonte para Marx e Freud), Herman Hesse, Paulo Freire e Fritjof Capra. Celebro portanto o jeito de pensar baseado nos modelos e arquétipos da dinâmica dos sistemas criada por Forrester. O jeito de VER SISTEMAS.

VER SISTEMAS! Ao escrever, descobri este ótimo artigo sobre “Curando a cegueira em relação a sistemas”.

Você talvez goste de saber um tiquinho mais da pré-história da Quinta Disciplina. História é legal, pois ajuda a ligar os pontos (veja a palestra de Steve Jobs, “How to live before you die”, onde ele conta um incidente que 10 anos depois resultou no MacIntosh). Ouça. Do “Industrial Dynamics” Forrester partiu para o “Urban Dynamics” e depois para o algo arrogante “World Dynamics”. Foi assim que o raciocínio sistêmico contribuiu com o Clube de Roma, um think tank de intelectuais e empresários, que produziu na época o primeiro precursor do filme “Uma Verdade Inconveniente”, de Al Gore: a pesquisa “Limits to Growth” (“Limites ao Crescimento”), em que as simulações de Forrester mostraram o embrião da consciência da sustentabilidade, que naquela época ainda não tinha nome.

Bem. Hoje eu vejo a Quinta Disciplina como indispensável à inteligência coletiva, ao aprendizado e inferência aos quais as práticas convencionais de gestão do conhecimento ainda são alheias. Ela se aplica desde a identificação de intervenções para melhorar o processo de desenvolvimento de software numa empresa, até o planejamento da guerra do Afeganistão (e, claro, na melhoria de nossos sistemas de saúde, de segurança pública, do judiciário etc).

Mas voltemos agora àquele gancho lá do início, quando eu disse que 20º aniversário é um bom momento para fazer pela primeira vez alguma coisa.  Apliquemos o raciocínio sistêmico da Quinta Disciplina à política brasileira. De novo os poetas, agora Caetano, que tal? “Viva a bossa, sassá, eu vou lançar um movimento no Planalto Central do país.

Pense, por exemplo, no aumento de 62% auto-concedido pelos nossos valorosos parlamentares, inclusive, para meu espanto, pelo deputado federal a quem dei meu precioso voto. O que conseguimos enxergar? Sem o olhar sistêmico veremos os efeitos de primeira ordem: remunerações que, nos casos de boa parte desses cidadãos, nada têm a ver com o valor que agregam para nossa sociedade.

Mas a Dinâmica de Sistemas apontaria mais do que isso: o aumento brutal do desequilíbrio entre esses salários e os de juízes, policiais, professores, médicos e outros servidores públicos que, com razão, irão reivindicar justas equiparações que, por sua vez, trarão desequilíbrios orçamentários gigantescos, pois o gasto público é majoritariamente formado por salários. Ou seja, redução na capacidade de investimento do Estado, a não ser que a Dilma faça um arrocho na taxa de juros. O cobertor é curto, como todos sabemos, mas o deputado que elegi certamente não pensou nisso quando deu o voto ao seu próprio aumento.

Tá certo? Não. A memória do povo é curta, como todos sabemos, e todos já se esqueceram dessa manchete dos 62% de algumas semanas atrás. Mais uma que passou. Outras virão, e disso as manchetes haverão de viver, pois coisas chatas como reforma política não dão ibope.

Mas os 62% podem nos motivar a não ficar parados. Outro poeta, agora Vandré, também já falava sobre conhecimento: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Teremos novas eleições em 2012. Há o que fazer desde já.

Em 2012, dependendo de ser aprovada em 2011 uma lei de iniciativa popular (como foi a da Ficha Limpa), poderemos então, talvez, deseleger (“recall”) parlamentares que não tenham se desempenhado à altura da representação que receberam. Mais importante que a questão do salário ter mais ou menos 62% é o papel alavancador que esses personagens têm, ou deixam de ter, na elaboração e definição de estruturas que condicionam a nossa qualidade de vida. Eles produzem sim, por exemplo, a aprovação do Código de Processo Penal, que finalmente cria condições para desafogar o nosso Judiciário. Isso merece um bom salário, mas não para todos. Meritocracia neles. Dá para ter isso.

Veja os estudos do professor Marcos Peixoto, de Direito Constitucional. Ele tem a experiência de ter fundado em 1989 a Associação pela Iniciativa Popular, que fez a campanha (sem internet…) que resultou na primeira Emenda Constitucional, de iniciativa popular. Teremos que ter cerca de 1.300.000 assinaturas para poder tramitar projeto de lei em 2011 para termos o “recall” em 2012. stamos começando a esquentar no Facebook, ok?

Falando de aniversários, proporemos uma meta da campanha para a comemoração dos 5 anos da Dança do Elefantinho no plenário da Câmara com a absolvição dos mensaleiros em 22/3/2006. Ora, eles sambam, nós também sambamos. Vamos, na base do samba, com humor, mas com confiança de que teremos capacidade de construir uma democracia em que o “todos são iguais perante a lei” não seja apenas declaração de intenção. É  construir História.

Sistemicamente. Yes, we can…

Segundo turno e a terceira opção

domingo, 10 outubro 2010, 17:28 | Categoria : Inteligência Coletiva, Inteligência societal, Política
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“Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas motivadas e comprometidas possa mudar o mundo. Na verdade é a única coisa que o faz.”  Margaret Mead

Minhas reflexões neste “Vou Vivendo” têm tido um eixo: a transversalização de momentos de vida com os temas da aprendizagem e inteligência coletivas.

Chega o momento de trazer à tona a dimensão política que às vezes deixo transpirar no Twitter e no Facebook, mas que raramente trago aqui.


Segundo turno: Dilma ou Serra?

Como você, eu olho o hoje e busco o amanhã, com o olhar da minha história. Um breve momento me vem à memória: na participação política  que tive mais intensamente nos primeiros anos da redemocratização, tive grande orgulho em ser figurante no episódio que vou contar. Ulysses (PMDB), meu candidato, tinha sido derrotado no 1º turno das eleições de 89 (assim como Covas do PSDB). No 2º turno (Collor x Lula), ninguém das minhas tribos tinha dúvidas. Embora Ulysses tivesse sido recusado no palanque de Lula (claro, simbolizava para os negacionistas a tal da “farinha do mesmo saco”), mesmo assim um pequeno grupo de PMDBistas articulou no gabinete do então deputado estadual Arnaldo Jardim o Comitê de PMDBistas pró-Lula. Tive a honra de estar na formação desse grupo, e guardo com carinho o livrinho caixa em que registrávamos as contribuições: nomes de muitos amigos queridos (com seus NCr$ 300 a 1000), hoje espalhados em vários partidos ou que, como eu, resolveram exercer sua cidadania fora da política partidária. DISSEMOS NÃO AO NÃO, E APOIAMOS LULA.

Foi nessa campanha que conheci também Ricardo Young, dono do Yázigi, e que um ano depois viria a ser um dos fundadores do PNBE – Pensamento Nacional das Bases Empresariais. Agora tive a alegria de votar no Ricardo para senador, além do Aloysio (PSDB) e de Paulo Teixeira (PT) e Carlos Neder (PT). E, claro, Marina e Guilherme Leal (este também do PNBE de 1990).

História tem fluxos: do PNBE brotaram, nestes 20 anos, lideranças que fundaram entidades e movimentos, inclusive o Instituto Ethos, atualmente presidido pelo Ricardo, mas também, entre outras, a Fundabrinq pelos Direitos da Criança, a Transparência Brasil, o Akatu pelo Consumo Consciente, o Forum Social Mundial, a Rede Nossa São Paulo e a Rede Brasileira de Cidades Sustentáveis.

Ou seja, tive a bênção de ver nascer há 20 anos um futuro de sociedade na qual a política se dignifica e se recupera da corrosão de legitimidade promovida por um sistema político doente e por lideranças sem grandeza. Tenho certeza de que foi esta coalizão de empresários e militantes de movimentos sociais que trouxe 20% dos votos a Marina Silva no primeiro turno (não foi o PV, partido que segue a lógica tradicional dos partidos políticos do século 20, e  que agora se apressa em aderir a Serra).


Negacionismo

Hoje amigos me dizem: nossa, o Serra é centralizador, autoritário, trata os professores na porrada, vai querer privatizar tudo, já imaginou? Olha só a privatização desordenada da educação superior no governo FHC, com a desregulação na criação de novas universidades… É a volta do neoliberalismo… E essa turma do DEM que vem com ele? Olha o retrocesso de Serra/Kassab na Prefeitura de São Paulo com as tentativas de desmonte do Plano Diretor que a Marta fez…

E eu digo: é, é mesmo. Mas este NÃO me chega de forma desconfortável.

Outros amigos dizem: nossa, Dilma é o lulismo, nem é mais o PT, e com essa maioria no Congresso será uma mexicanização, teremos um PRI que fará o que quiser… E o país vai agüentar essa carga tributária? Vai agüentar uma dívida pública maior ainda? E a cooptação que o Lula já fez de todas as Centrais Sindicais? Aí alguns evocam até o cenário de uma inflexão para baixo da curva econômica (um dia acontece…), a busca de bodes expiatórios, e um neoperonismo apontando os “inimigos do povo”, os que “torcem contra o país… Se aconteceu numa Argentina até então civilizada, por que não poderá acontecer no Brasil?”

E eu digo: é, é mesmo. Mas este NÃO à Dilma também me incomoda.

Apesar de que, sabe-se lá, pessoas mudam, chegam outras pessoas… Aí vem até a minha paranóia judaica de quem conhece bem a história de um cara eleito democraticamente em 1933, em maioria simples, por um eleitorado que tinha esquecido de “Mein Kampf” para depois ter que lembrar. Hitler, Mussolini, Perón, Getúlio, Nasser, Chavez, Ahmadinejad…

Mas faz parte de minha história pessoal também uma imersão na questão da paz no Oriente Médio, que foi onde incorporei o termo “negacionismo” ao meu vernáculo. No conflito do Oriente Médio, o negacionismo é a classe de atitudes que acometem o Hamas, o Hizbollah, a Al Qaeda, que não aceitam o outro. Que recusam o diálogo, a empatia, a escuta. Acomete também ministros de Israel e colonos da ultra-direita israelense, que não reconhecem a legitimidade dos interesses e a humanidade dos palestinos. NÃOS que são úteis somente para a geopolítica do Irã e da China, ao aumentarem seus espaços de influência. Mas que têm resultados trágicos nos bombardeios de Gaza e  nas famílias israelenses e palestinas privadas de seus filhos mortos ou reféns.

Em Gestão do Conhecimento, usamos o conceito de Modelos Mentais trazido por Peter Senge em “A Quinta Disciplina”. Então, o modelo mental acima caracteriza-se por privilegiar o “nós” versus “eles” (característica que tanto assemelhou FHC e Lula, e que está tão presente nesta campanha tão rebaixada no nível ide despolitização que nos faz pensar se não estamos, todos, regredindo.

E como pode ser que a essa altura do campeonato estejamos de novo “nós” contra “eles”, seja com Dilma ou com Serra? Vítimas indefesas deste modelo mental?


Lula, Dilma e Serra: o homem e sua circunstância

De que Dilma estamos falando? E de que Serra?

O jogo leva alguns a estereotipar o Serra como neoliberal. Mas Serra foi o cavaleiro do SUS que foi trazido à Constituinte pelos comunistas do PCB, que o trouxeram do PC Italiano, e que depois ajudaram a implantá-lo com Sérgio Arouca no Ministério da Saúde de Lula. Parênteses: como evidência de que as coisas não são tão simples, o Dr. Adib Jatene (homem íntegro do partido de Maluf) foi também importante cavaleiro deste SUS, muito mais democrático e justo do que aquele modelo que o Partido Republicano impede o Obama de implantar na grande democracia do Norte.

O Lula da Carta aos Brasileiros era o Lula da NEGAÇÃO da parceria para derrotar a ditadura no Colégio Eleitoral? Não. Era outro Lula. E o Lula da NEGAÇÃO do Plano Real? E o Lula do “nunca antes na história desse país” era o Lula da Carta aos Brasileiros? Também não. O Lula dos SIMs a Sarney, Collor, Maluf e Tiririca é o Lula de todos aqueles NÃOs?

Não, o Lula foi o produto que resultou a cada momento de um sistema político deformado e deformante (nem por isso deve merecer nossa complacência). Poderia ter sido um estadista, mas Gandhis e Mandelas não se fazem todos os dias. Definitivamente, o Lula que deu camisa da Seleção para o companheiro Ahmadinejad não foi o Lula da carta que fiz à minha filha de 2 anos, que apertou os botões da urna eletrônica em 2001 (para que leia quando for votar de verdade em 2015).

Mas é correto vermos o aparelhamento de Lula e Zé Dirceu como motivos para estereotipar Dilma como cavalo de Tróia de uma República Sindical? Não poderá ser uma outra Dilma? E faz sentido desqualificá-la como inexperiente? Faz sentido recorrer ao aborto na baixaria da campanha eleitoral, usando a estratégia dos marketeiros do Jânio com a maconha para derrotar FHC em 85?

O homem é o homem e sua circunstância. O que serão Dilma ou Serra depende menos de ser um ou outro do que do jogo que estiverem jogando.

Então, acho que a questão é a seguinte: Dilma e Serra dos próximos anos são ambos grandes riscos que os bastidores das campanhas não revelam. Ambos são roleta russa. E temos que fazer hedge.


Sim, estamos cativos do “Dilema do Prisioneiro”

Quando vejo Aloysio Nunes e Roberto Freire simplificando sua mensagem unilateral (e são ambos da tribo dos SIMs que eu vi fazendo a transição para a democracia), e quando vejo Leonardo Boff (meu guru cristão, par do meu rabino Heschel e  da minha monja  budista Coen) e amigos muito próximos estereotiparem a candidatura Serra, fico a pensar: este modelo mental não é parecido com aquele produzido pelo Dilema do Prisioneiro?

Explico: Dilema do Prisioneiro é uma situação analisada na Teoria dos Jogos, muito utilizada na Ciência Política, nas teorias sobre negociação e em estratégia competitiva, para ilustrar como pessoas lidam com a incerteza quando não podem se comunicar com os seus pares.

Temos que aceitar este jogo? Ou podemos mudar o jogo?

Afinal, em outro contexto, nos anos 70 em que eu lia o Serra em livro clandestino publicado em espanhol no Chile sobre o milagro brasileño, ou lia seu livro com a Maria da Conceição Tavares (PT), guru de todos nós, ele votaria na Dilma. E naqueles dias a Dilma votaria no Serra.

Mas muita água rolou, e ambos tiveram sua cota de responsabilidade nessa distribuição torta de renda em que os mais pobres receberam o Bolsa Família e os mais ricos ganharam a Bolsa Banqueiro, várias vezes maior, através da taxa de juros mais alta do mundo. Quem perdeu? Na pizza da renda, a classe média, mas o mais grave é o não-investimento nos serviços públicos essenciais que são a forma mais eficaz de distribuição de renda: educação e saúde públicas de qualidade, transporte público, segurança pública etc. Ou seja, numa visão sistêmica, a distribuição de renda do Bolsa Família é uma farsa e uma miragem de curto prazo, pois continuamos depredando o capital humano que é o principal componente do patrimônio da nação (a partir deste ano as empresas de capital aberto precisam apresentar no seu balanço o seu capital intelectual. E as contas públicas?).

“Moça, abre a janela…”  Vivemos num mundo cheio de oportunidades, como diz o cartaz do HSBC nos aeroportos…


Uma terceira opção: a inteligência

SIM. Há possibilidade de mudar o jogo com uma terceira opção, que supere a dicotomia cartesiana e excludente Dilma x Serra. Uma terceira opção, inclusiva, que vale tanto para o caso da vitória de um quanto para a vitória da outra (ver sobre  a Lógica do Terceiro Incluído em “A transdisciplinaridade e a modernidade!).

Não me conformo em aceitar um jogo que impõe esta escolha na base do “ou esse ou aquela”, especialmente na base do medo. “A ideologia da direita é o medo”, já nos ensinava Simone de Beauvoir (crédito a Rodrigo Vianna, em “O círculo da direita se fecha: teocracia, censura nas redações, ideologia do medo”, na Carta Maior, sobre a demissão de Maria Rita Kehl na “liberal” Folha ).

Mais que isso. Tenho convicção de que, na era do conhecimento, o Brasil não pode se dar ao luxo de imolar lideranças, o recurso intelectual mais escasso, no altar de um sistema político arcaico. Precisamos de Dilma e de Serra.

Nosso processo eleitoral é BURRO.  Podemos mudar o jogo, mesmo antes de uma reforma política que mude as eleições, assim como podemos tornar INTELIGENTES todos os processos, nas empresas, nas cadeias produtivas, nas instituições, na sociedade, no planeta. É o desafio do século 21.

O segundo turno coloca um desafio para quem votou para que houvesse segundo turno… Como construir um hedge (*) para ambos os riscos?

Podemos ter apenas Dilma ou apenas Serra no governo, sim, mas podemos ter outra Dilma e outro Serra, se o contexto no qual um ou outro irá governar for outro. O hedge está na mudança desse contexto.

Creio que a chave para isso está na recusa em aceitar, de ambas as partes, a imposição do jogo do plebiscito, da escolha de “nós” contra “eles”. Denunciar as estratégias de comunicação que confundem o eleitor com essa polarização hipócrita.

Trata-se de colocar para ambos uma agenda positiva de compromissos com mudanças fundamentais. E, quem sabe, em vez de jogar no par ou ímpar, votar naquele que primeiro aderir… Quais seriam esses compromissos? Muitos saberão explicitá-los de forma melhor e mais completa do que eu seria capaz de fazer.: que reforma política, que regulação dos poderes (inclusive da mídia), que taxa de investimento sobre o PIB, que modelo de políticas fiscal e monetária, que critérios de sustentabilidade etc. Limito-me aqui a instigar as lideranças, especialmente aquelas em que votei, nos diversos partidos.

Temos a janela de oportunidade no segundo turno, em que o capital político gerado pelos 20% da Marina fazem da sua neutralidade um ativo precioso para o país, na medida em que um indivíduo (o papel do homem na História) poderá ser ponto de convergência de aspirações de um futuro de sustentabilidade econômica, social, ambiental e política que influenciará aqueles que serão o fiel da balança no dia D da votação.

E tenho certeza de que um movimento neste sentido não termina no dia da votação. É o tiro de partida para uma sociedade que exerça sua inteligência coletiva na promoção de uma reforma política que aprofunde e consolide o jogo democrático com novas instituições à altura das possibilidades do século 21.


Você também pensa assim?

Então aja. Dizem os cientistas das redes sociais que cada um de nós tem 6 graus de distância de qualquer outra pessoa no país. Lembre quais são as SUAS 10 conexões em posições para empurrar essa mudança de jogo. Foi assim que saiu o Ficha Limpa. Em rede. Vamos, temos 20 dias! As redes sociais atingem no mínimo 90% dos municípios do pais, e no mínimo 95% dos eleitores, nem que seja através da padaria mais próxima. Vote num ou noutro, mas também na 3a opção!

Em 2002 foi a Carta aos Brasileiros.

8 anos depois, no mundo 2.0, façamos a Carta DOS Brasileiros!

______________________

(*) Hedge. Técnica usada em Finanças para neutralizar riscos. Se você assumiu dívida em euros, reduza o risco de perder na queda do euro. Basta trocar ativos em outras moedas por ativos em euros. Vendeu opções de compra de ações da Petrobras? Faça o hedge comprando opções que as equilibrem. Sempre há quem tem o risco inverso, e queira vender).

O círculo da direita se fecha: teocracia, censura nas redações, ideologia do medo

É sério: o que faz falta é conversar

quinta-feira, 23 setembro 2010, 23:52 | Categoria : Gestão do Conhecimento, Inteligência Coletiva
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Há 35 anos cantou o trovador da Revolução dos Cravos:

“O que faz falta é avisar a malta do que faz falta” .

Então vamos avisar a malta: o que faz falta é conversar.

Veja só: “Falta de conversa eleva o número de mortes em UTI” (Folha de São Paulo, 5/9/10, Seção Saúde). Resumo interpretado: por falta de conversa, em muitas UTIs o conhecimento existente não é utilizado para salvar vidas. Conforme a pesquisa gaúcha citada no artigo, a taxa de mortalidade nas UTIs pesquisadas foi de 26% no grupo que se comunicava raramente, enquanto no grupo em que as conversas eram quase diárias a taxa ficou em 13%. Ou seja, na UTI conversa é questão de vida ou morte.

Indicador eloquente para a gestão do conhecimento, não?

E por falar em conversa, há poucos dias participei do Seminário “Sociedade em Rede e Educação”, do Instituto Vivo Educação (veja o link lá embaixo). Peguei só um pedacinho dos 3 dias de conversas maravilhosas sobre a aprendizagem informal e a aprendizagem comunitária que se dá nas redes de conversações. Foi também uma alegria ver ressuscitar no evento um dos gurus que fizeram minha cabeça nos anos 70 (anos que me parecem estar voltando quando converso com a garotada na faixa de uns 15 a 25): Ivan Illich, de “Sociedade sem Escolas”, e autor também de (que coincidência, pois falamos lá em cima de UTIs), “Expropriação da Saúde – Nêmesis da Medicina” (nos sebos a R$ 10,00 ainda . O “ainda” é por conta do preço de “Sociedade sem Escolas” nos mesmos sebos: R$ 40,00 a R$ 75,00!!!. O que será que está acontecendo com a procura deste livro?

Recebi o artigo sobre as UTIs (mais uma coincidência) depois de uma agradável manhã de sábado em que discuti com uma nova amiga a apresentação que faria (deve ter sido hoje) sobre Gestão do Conhecimento em hospitais, no Fórum de Recursos Humanos da SPDM – Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina.

Essa convergência de fatos me leva a rasgar a fantasia e fazer três proposições para estratégias de gestão do conhecimento, tema que às vezes parece tão exótico, abstrato, ou até mesmo pedante.

A primeira: Gestão do Conhecimento só tem utilidade de fato, se o seu resultado for a produção de mais e melhores momentos em que pessoas conversem. Parece óbvio? É uma proposição violenta: confronta a sabedoria convencional de nossas gerações, que aprenderam que conversa não é trabalho. Somos todos, ainda, vítimas do taylorismo-fordismo incrustado em nossas instituições, desde a escola…  até a noção de carreira (sim, considero “carreira”, como fato lingüístico e sociológico, uma instituição, na medida em que condiciona padrões recorrentes de atitudes e comportamentos. Mas isso merecerá um outro post).

Momentos da verdade. Há leituras que nunca esquecemos: há 20 anos, li o  livrinho de Jan Carlzon, “Hora da Verdade”(mal traduzido de “Moments of Truth”). São só 150 páginas, mas busquei no Google um resumo para você, que explica: “[hora da verdade]… é o primeiro encontro de quinze segundos entre um passageiro e o pessoal da linha de frente, do funcionário que faz a reserva até a aeromoça, que determina a impressão sobre toda a companhia na mente desse passageiro” (porisso que a tradução é ruim: não há hora de 15 segundos).

Presidente da Scandinavian Airlines, Carlzon tinha tirado do hemisfério direito do cérebro essa expressão, e dizia, sobre sua empresa: “temos 50.000 momentos da verdade, todos os dias”.

Num hospital, “momentos da verdade” são momentos de vida ou morte: o hospital pode ter o poder de inscrever o paciente no “Livro da Vida”(metáfora do Dia do Perdão, o Yom Kippur, o mais importante momento no ciclo anual judaico, em que eu, agnóstico até a medula, me deixo tomar pela energia (ouça). Nesse dia as pessoas se desejam Chatimá Tová, que significa “boa inscrição no Livro da Vida”).

Carlzon sacou (isso foi em 1982!!!) a idéia da pirâmide invertida: todos, e especialmente o presidente da empresa, estão a serviço da pessoa que está no seu momento da verdade com o cliente. Criou a semente da revolução em processos na qual, 40 anos depois, estamos ainda engatinhando. E que, tudo indica, se revelará mais rapidamente no governo do que nas empresas. Por que tenho essa convicção? Porque dezenas de milhares de lactobacilos da geração Y (os “hackers”) encontram-se, neste momento, atacando os processos de governo em todas as frentes e em muitos países, através dos movimentos OpenGov e OpenData. Nas empresas os chefes lhes falariam sobre conformidade. “Hackers” não seguem normas. Conformidade e inteligência requerem uma arte especial para poderem conviver.

Eu expandiria, para a minha nova amiga: “momentos da verdade no hospital são todos os momentos de quinze segundos ou minutos ou horas, em que um médico conversando com outro, ou a enfermeira conversando com o comprador do remédio que está em falta, ou o comprador com o almoxarife de outro hospital, podem fazer a diferença entre a vida e a morte de um ser humano”. Indo mais longe, do hospital para a diplomacia (que será assunto de mais outro post, antes do segundo turno das eleições): por que não falar de milhões de seres humanos? Momentos da verdade são todos os momentos de quinze segundos em que alguém pode induzir alguém a fazer um gesto que evite uma guerra (está em tempo, na iminência de um genocídio no Sudão, e você pode assinar algum manifesto da Avaaz como o que assinei semana passada para implorar aos ministros do STF que estavam indecisos, para que façam história aprovando o Ficha Limpa – foi legal ter sido 1 dos 170.657).

Foi num momento da verdade que Lula se viu forçado a dar um toque ao amigo Ahmadinejad sobre o apedrejamento de Sakineh). Ou, de novo no hospital, um determinado momento de 15 minutos em que uma fisioterapeuta empreendedora fisga a atenção de um diretor de ortopedia, e acaba dando origem a um Núcleo de Fisioterapia Ortopédica (minha mãe é beneficiária dessa história real, ocorrida no Hospital Santa Isabel).

Bem, para ler o tesouro inteiro de Carlzon, você paga R$ 12,72 na Siciliano , e mais a sua atenção, que é hoje o único recurso verdadeiramente escasso nesse nosso novo mundo.

A segunda proposição. Não vou ceder todos os anéis aos amigos na minha tribo predileta, a Escola de Redes , que defendem a espontaneidade absoluta das interações nas redes sociais. Que as organizações devem fomentar conversas, sim, mas… (por que não?) fomentar tendo em vista produzir e destilar o caldo para resultados organizacionais. Na tribo das redes sociais, confesso que, no eixo esquerda-direita, sou “de direita” (perdão pela heresia unidimensional: é força de expressão). E aí recorro a outro português: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

Voltando às UTIs da pesquisa: vale a pena conversar tudo que for possível, envolvendo todos, e a qualquer momento, para baixar os 23% de mortalidade para 13%. E, para que isso aconteça, devemos ter em vista construir os fenômenos que acontecem nos “momentos da verdade” em que se faz presente o problema crítico de cada instituição.

Terceira proposição: não se trata de hierarquias versus redes, e sim de organizações mais distribuídas do que centralizadas. Conversa é tempo, e tempo é cobertor curto. A revolução do chip não mudou nada no número de horas que nos são dadas pela rotação da Terra. Temos aí um limite físico, algo como a lei da gravidade. Pêndulo para a esquerda: para que haja a muita conversa que queremos para baixar a mortalidade nas UTIs de 26% para 13%, é preciso todos conversarem um pouquinho, e não apenas uma elite ter legitimidade para conversar (no trabalho). Senão engargala e não tem conversa.

Corolário: a quantidade e qualidade de conversas para enriquecer os momentos da verdade requer redesenho organizacional, com compartilhamento do poder e das responsabilidades. Não apenas a corrosão das hierarquias, mas o fim do “cada um no seu quadrado”. Estamos falando das dimensões “estrutura organizacional” e “processos” em qualquer um desses modelos usados para diagnosticar empresas. A discussão não é hierarquias versus redes, mas sim a de organização do trabalho em que ninguém seja “dono” de alguma tarefa, esteja esse alguém em cima ou em baixo. Exemplo extremo é o táxi: você chama e vem um só, mas qualquer um.

Aproveito, de contrabando, para infiltrar uma quarta proposição, sem explorá-la aqui: uma questão central para a Gestão do Conhecimento é existir governança. O inimigo não são as hierarquias: elas têm QI organizacional baixo e estão moribundas. Até o Exército norte-americano já as superou, sem precisar destruí-las: é um dos maiores exemplos em comunidades de prática. E lá deve ser mais fácil por causa – hehehe – da disciplina e da conformidade… Trata-se não de substituir hierarquias por redes, e sim de criar modelos de governança com QI alto (puxa, falar de QI na era das inteligências múltiplas… como nos socorremos das palavras!).

Bem, onde quero chegar?

Quero dizer que, para fazer a Gestão do Conhecimento, talvez devamos aprender… a aprender…  fora do nosso quadrado (seja o quadrado da biblioteca, do RH, da comunicação interna, do partido político, da categoria profissional, do país), como nos ensina outro guru, o Augusto de Franco, ajudado pela Xuxa (“ado ado ado, cada um no seu quadrado”). Não deixe de ler e ouvir, e de ler seus demais escritos, na Biblioteca da Escola de Redes.

Ou seja, este nomezinho infeliz (Gestão do Conhecimento) encobre o principal, confinando-o num quadrado chamado conhecimento tácito. Na verdade é simples: gestão do conhecimento é gestão de ambientes e processos que fomentam e enriquecem conversas que farão diferença no momento da verdade. Todo o resto são detalhes.

Parece óbvio. Não é: repare você como é forte em vários de seus colegas a crença de que nos comunicamos através de documentos, sem conversar.

Mais sobre conversas? Temos muito que conversar, mas vou dando algumas pistas: Paul Pangaro (autodeclarado antiutópico e pragmático – vi que não sou o único “de direita” na tribo), Jay Cross, os Papagalis, o Augusto de Franco, todos estão lá no material do Seminário da Rede Vivo Educação.

Se ainda tiver fôlego, ouça agora Gonzaguinha participando dessa conversa e explicando à sua maneira porque temos que conversar: “toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas”.