Carta aberta a Fernando Henrique
Caro professor
A facilidade dos novos tempos me permite dirigir-lhe a palavra diretamente e em público, sem pedir licença, e sem depender de intermediários que filtrem o que tenho a dizer.
Você certamente conhece o fenômeno dos seis graus de distância que separam quaisquer duas pessoas no planeta. Eu e você estamos separados por apenas dois graus, com amigos em comum que privam de sua intimidade. Estou certo de que alguém cujo telefonema você atende chamará a sua atenção para este apelo.
Uma curtissima apresentação, quase irrelevante. Tivemos um pouquinho de proximidade direta quando mergulhei em sua campanha para a prefeitura de São Paulo, há 27 anos, na coordenação do Comitê dos Profissionais Liberais, de que você talvez se recorde. Não me reconhecerá ao nos cruzarmos, na curta distância de 100 metros que me separam da banca de coco onde talvez possamos continuar essa conversa, em frente à sua sacada. Mas essa apresentação só importa por causa do número, pois espero poder celebrar quatro septênios numa campanha maior, e desta vez vitoriosa.
Sei que minha ousadia traz o risco de que alguns me julgarão impertinente, patético ou presunçoso. Faço-o por entender que está na sua mão a chave para a solução da questão Israel-Palestina, que pode mudar os rumos da humanidade e ter desdobramentos não apenas para os povos da região, mas também para os destinos da política brasileira e até mesmo os da política norteamericana.
Há uma janela de oportunidade, de curta duração, para que você marque sua biografia com um movimento de grande estadista, magnificado ainda pelo fato de não ter hoje – e não precisar disso – um cargo que lhe confira formalmente esse papel. E tudo que você poderia talvez fazer já hoje, em homenagem ao Dia da Memória do Holocausto – que poderá se tornar um dia universal em memória de todas as tragédias coletivas causadas pela insanidade humana – é dar três telefonemas, a pessoas que o atenderão calorosamente: Shimon Peres, Mahmood Abbas e Nelson Mandela. Três telefonemas que poderão mudar o curso da história. E mais um que sugerirei mais adiante.
Você talvez não faça ideia da dimensão dos movimentos sociais que, em Israel e na Palestina, representam a maioria em ambas as sociedades que deseja concluir de forma amistosa o processo de paz que se arrasta desde os acordos de Oslo, em 1992, e que deveria ter se concluído no prazo de cinco anos, e que não o foi, talvez por duas ironias da história: o assassinato de Itzhak Rabin por um extremista de seu próprio povo, a eleição de 1996 em Israel ter sido ganha por Benjamin Netanyahu, por margem de 1% sobre outro dos campeões do processo de paz, Shimon Peres. Como conhecedor das imperfeições da democracia, você certamente entende a tragédia daqueles 1%, e conhece também a força que podem ter os pequenos gestos.
As negociações entre esses movimentos por uma paz justa prosseguiram mesmo durante o período de oito anos de trevas em que George Bush Jr. substituiu no governo norteamericano o patrono das negociações de Camp David, Bill Clinton. É um movimento amplo, com lideranças expressivas e representativas, que conduziram, mesmo fora do poder, como você está hoje, a chamada Iniciativa de Genebra, em 2002, que chegou a acordos simulados que são as bases mais sólidas para um acordo definitivo de paz para por fim a 80 anos de violências mútuas. Há de se notar que dois desses líderes, os ex-ministros de Israel e da Autoridade Nacional Palestina, Yossi Beilin e Yasser Abbed Rabbo, trouxeram há poucos dias esclarecimentos em sessão conjunta das Comissões de Relações Exteriores da Câmara e do Senado federais.
Você talvez goste de saber um dado histórico para a compreensão plena das origens desse conflito que vem torturando 4 gerações de judeus israelenses e árabes palestinos. É este dado que me leva a dizer 80 anos, e não 64 (desde a criação do Estado de Israel e a concomitante Nakba, ou catástrofe, palestina), nem 100 (porque nos aproximamos do centenário do Acordo Sykes-Picot, em que ingleses e franceses acordaram a divisão do espólio do Império Otomano, com promessas para judeus e árabes que se mostraram conflitivas.
O entendimento das datas é importante por poder levar a um melhor entendimento da História, e facilitar a reconciliação das narrativas dos dois povos. Digo 80 anos porque, ainda em 1929, 400 judeus foram salvos por 19 famílias palestinas, de um massacre cometido por uma turba árabe em Hebron, evidenciando que o antagonismo era incipiente. E na década seguinte há dois fatos de enorme significância, que são encobertos nas narrativas de ambos os povos pelas brumas da História e pelo ruído da culpabilização recíproca: 1. a ascenção de Hitler ao poder; e 2. a conquista da hegemonia palestina por um líder, Haj Amin Al Husseini, cujas decisões determinaram o antagonismo excludente entre os que vieram a constituir o Estado de Israel e os que vieram a constituir a identidade nacional palestina.
Não se imaginava então uma vida tão breve para o Terceiro Reich (causa espanto observar que o estrago todo foi feito em não mais que 12 anos, embora Hitler o desejasse “o Reich de Mil Anos”). A opção desastrosa que esse líder palestino fez - aliar-se ao imperialismo germânico para derrotar o imperialismo britânico – continua sendo um esqueleto no armário que é pouco conhecido. Sua pregação do extermínio dos judeus na Palestina, durante uma insurreição sangrenta de 3 anos (em que as vítimas mais numerosas foram de seu próprio povo) levou as lideranças judaicas na Palestina a concluírem que tinham ao seu lado uma extensão do monstro já visível que logo revelaria a destrutividade, ceifando na Europa dezenas de milhões de vidas. A violência desse período não pode deixar de ser associada ao que veio a ocorrer com os palestinos uma década mais tarde, com a criação do Estado de Israel: o que foi parcialmente um êxodo e parcialmente a expulsão, de 700.000 palestinos (e a decorrente expulsão de cerca da mesma quantidade de judeus que viviam em paz com seus vizinhos nos países árabes. Vale dizer que aquele personagem sinistro esteve também por trás dos primeiros massacres de judeus (Farhoud) até mesmo no Iraque, em que judeus haviam vivido em paz e amizade com o povo árabe desde a Babilônia, nos tempos bíblicos.
Professor, agora mostrarei por que estou convencido de que você é o homem com a chave da solução para por fim a essa etapa trágica na história de dois povos e iniciar uma nova era em que a paz, possível e desejada pela maioria, mal representada por imperfeições dos sistemas políticos, terá efeitos sobre o equilíbrio de todo o Oriente Médio, e talvez sobre uma nova ordem mundial em que possamos até sonhar com a completa extinção dos arsenais nucleares em todos os países. Tudo pode começar por esse acordo.
- O seu prestígio entre os setores conservadores no Brasil, professor, é incontestável. Por mais que rejeite ser considerado um político de direita, e certamente não o é, você é bem ouvido pela direita, o que é um ativo precioso para a nossa democracia. E é amplamente respeitado por todas as lideranças conservadoras que são hegemônicas nas comunidades judaica e árabe brasileiras. Nenhum líder expressivo dessas comunidades deixaria de comparecer a uma convite seu para um debate no seu Instituto, em que você lhes proponha papeis junto às suas comunidades para que elas tomem iniciativas em relação aos governos israelense e dos países árabes, inclusive a Autoridade Palestina.
- Em tal debate, você poderá dizer, em bom português, que todos entenderão, tudo aquilo que já disse, em inglês para seu grupo seleto de colegas nos “The Elders”, em 2009, 2010 e 2011. Como faltam alguns meses para o seu quarto artigo anual, poderá começar a construí-lo a partir de agora com ações, que poderá compartilhar desde logo com todos os seus companheiros, e especialmente a figura símbolo talvez mais decisiva hoje para a questão Israel-Palestina, Nelson Mandela. Você sabe, pelo filme que assistiu há 6 meses, que há Gandhis na Palestina. Há também Mandelas., que você pode ajudar a libertar, como fez seu colega Jimmy Carter com os brasileiros durante a ditadura.
- Com isso, professor, as lideranças da comunidade judaica deixarão de terem ouvidos moucos para os apelos dos movimentos sociais israelenses e palestinos para que latinoamericanos dêem passos à frente, neste ano em que Obama está paralisado pelas próximas eleições e a Europa está paralisada pela crise do euro. E as lideranças da comunidade árabe também perceberão a oportunidade para terem um papel importante para todo o mundo árabe, e também para o mundo islâmico. Trata-se também, professor, pragmaticamente, de negócios, em que o Brasil tem muito a ganhar na disputa desses mercados que, somados, correspondem a uma China. Estamos falando, portanto, de oportunidades estratégicas para o Brasil no rearranjo dos blocos econômicos que se dará logo após a superação das crises financeiras. Temos uma parte que nos cabe nesse latifúndio, e o primeiro passo para o conquistarmos em grande escala poderá ser a sua convocação.
- É claro, professor, que você não é escutado por todos os brasileiros, nem por todas as lideranças internacionais. Mas aqueles que não o escutam escutarão um homem que é seu principal adversário e também amigo. Pense na grandeza de um outro passo: este é o quarto telefonema, para o seu sucessor, Lula. Um café no IFHC, seguido por um café no Instituto Lula. Aqueles que não o escutam, professor, escutarão o seu amigo no Instituto Lula, e reverberarão as suas reflexões para bem longe, chegando até mesmo ao Irã, à Síria, ao Hamas e ao Hezbollah.
- Trata-se, professor, de você e seu adversário e amigo fazerem aquilo que aprendemos com Itzhak Rabin e Yasser Arafat; “a paz dos bravos”. Bem, professor, não é possível imaginar que esses pequenos movimentos podem levar ao isolamento internacional e doméstico do governo Netanyahu em Israel, e dos extremistas palestinos que boicotarão sempre as iniciativas para a paz?
A sua história, professor, tem nela um grande ativo que nos credencia para esse papel: nossa luta pela anistia, pelo fim da ditadura, e pela construção do quadro institucional democrático que temos hoje. Com um pouco de licença poética, imagino você indo com seu adversário, acompanhado de Chico Buarque, para cantarmos juntos em Israel e na Palestina, o “Apesar de você”, para Netanyahu e os seus radicais e para os palestinos que recusam Israel.
Poderemos fazê-lo aqui em casa, em Porto Alegre, no Forum Social Mundial para a Palestina Livre, que marca o fechamento da janela de oportunidade que teremos neste ano.
Convido-o a refletir sobre os cenários possíveis, e também a considerar o que essa “paz dos bravos” poderá significar para a nossa política interna brasileira. Será que não poderia dar início a uma banda larga de cooperação para um pacto político interno mais amplo? Consigo imaginar concessões mútuas entre você e Lula que pacifiquem o próximo processo eleitoral, garantam a governabilidade do governo Dilma e a redução da sua dependência da carcomida base aliada, e abram caminho para uma reforma política e um pacto social que desaguem numa Constituinte em 2014.
Já fui longe em minhas alucinações. Mas já que cheguei até aqui, professor, será impensável um cenário no qual esse protagonismo conjunto dos bravos brasileiros ofereça a Obama a projeção de um contexto internacional que o fortaleça para as eleições que enfrentará este ano?
Professor, peço que me perdoe a ousadia e pretensão embutidas nessas palavras, e me coloco humildemente à sua disposição para me redimir de algo em que possa ter me excedido, e/ou para auxiliá-lo no exército de pessoas que tenho certeza que seguirão a direção que você apontar. Nossas raízes ibéricas nos dão a convicção de que tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
Respeitosamente
Sérgio Storch
__________________________
PS.: este post foi provocado por uma notícia que, por casualidade (será mesmo?) acabei de ler no jornal “El Paiz”, do Rio, em 13/2/1921, cuja capa dizia : “O senador norte-americano Borah prevê uma nova guerra se as potências não chegarem a um accordo sobre a questão do desarmamento naval”. A coincidência é haver eu perguntado no domingo, em debate na instituição judaica Bnai Brith, a um expert em Direito Internacional Público, sobre a viabillidade de um movimento global para desnuclearizar o Irã através de um acordo global em que Israel também assuma compromissos de se desnuclearizar, tendo como contrapartida não só a do Irã, mas também, para estimular a ambos, uma oferta de metas de cada um dos países que têm a bomba para reduzirem gradativamente os seus arsenais, até zerarem em 20 ou 30 ou 50 anos etc.
Professor, já viu que este seu admirador é megalomaníaco. Pois então, que tal um quinto telefonema, para Mikhail Gorbachev?





