Cadeias de conhecimento: dutos para a inteligência coletiva
Se existem tantas boas iniciativas para fazer setores produtivos avançarem, por que seus resultados são sempre limitados? A resposta pode estar na utilização do meio digital para criar dutos e cadeias de conhecimento.
“Todo jornal que eu leio
me diz que a gente já era,
que não haverá primavera.
Mas baby, oh baby,
a gente ainda nem começou.”
Raul Seixas
Você sabia que o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de frutas? E que 95% do seu consumo ainda se destina ao mercado interno? Sabia que 92% de toda uva “in natura” exportada pelo País sai de Petrolina? E você sabia da existência de um tal Sistema de Produção Integrado de Frutas (PIF)? É um “projeto do Ministério da Agricultura que agrega tecnologias sustentáveis que racionalizam a atividade, reduzindo o uso de fertilizantes e defensivos, monitorando o uso da água, do solo, do meio ambiente, inclusive no pós-colheita, regulando todos os passos da produção, de modo a permitir a rastreabilidade e certificação.”
E daí? O que isso tem a ver com a gestão do conhecimento?
Sempre vivi em prédios, e tenho medo de cobra. Sou estranho ao mundo da agricultura. Porém, fui profundamente impactado pelo artigo “Fruticultura, uma nova fronteira para exportação“, de Roberto Rodrigues (Gazeta Mercantil, 16/11), pelas reflexões que me provocou sobre o novo mundo a ser desbravado na construção da inteligência coletiva. Precisamos dramaticamente dela para driblar a contagem regressiva do apocalipse que tivemos a competência de construir no planeta.
Você e eu fomos pegos há algumas semanas pelo susto do leite contaminado. Acusações para todo lado. Ao mesmo tempo, milhões de agricultores e consumidores são contaminados a cada dia por agrotóxicos. Pois veja o que diz o artigo: “Estima-se que a economia com a redução do uso de fertilizantes em maçã chegue a 40%. Em uva de mesa, calcula-se que, de 2005 até agora, a redução do uso de fungicidas foi de 42%, o de acaricida foi de 89% e o de herbicidas, 100%! ” Podemos, como consumidores, fazer que isso aconteça mais rapidamente? Podemos.
Mas o artigo lembra a famosa máxima de Lew Platt, CEO da HP: “Ah, se a HP soubesse o quanto a HP sabe, seríamos muito mais lucrativos”. Se os fruticultores soubessem o quanto a fruticultura brasileira sabe, teríamos mais e melhores alimentos. Se todos os pais soubessem o quanto a educação brasileira sabe, teríamos um povo muito mais preparado. Se os prefeitos e síndicos soubessem o que Bogotá sabe sobre prevenção da criminalidade, não estaríamos comprando Insulfilm e nos insulando em condomínios fechados. Tudo seria tão melhor, e tantos PIBs e empregos a mais seriam gerados se soubéssemos o que sabemos.
Há um pó de pirlimpimpim para isso? Não. Vamos sair da idéia romântica e voluntarista de que somos todos irmãos e que precisamos aprender a compartilhar conhecimento. Como se a egocompetitividade que nos é inculcada todos os dias não existisse. E vamos também não levar demasiadamente a sério as fábulas da Web 2.0, que insistem que tudo se resolve, agora que todos podem falar com todos, e todos podem publicar o que pensam. Será que quem precisa ler lerá?
Não, está tudo por fazer. Voltando ao PIF e à fruticultura. O conceito já consagrado do ciclo de difusão da inovação nos faz ver que a existência do conhecimento não é suficiente para que exerça seus benefícios. Ele precisa ser difundido, assimilado e adotado. A curva da difusão da inovação, por outro lado, não é uma lei divina: ela pode ser acelerada.
Eis o desafio: o que fazer para reduzir a demora natural dos sistemas sociais em adotar as inovações?
O artigo da Gazeta Mercantil me levou a imaginar o conceito de Cadeias de Conhecimento. Imaginei e voltei ao PIF. Fui ao oráculo. Googlei “pif fruticultura”. E vi links para o MAPA (Ministério da Agricultura), Embrapa, Unesp de Jaboticabal, Profruta, Sebrae de Minas Gerais, rabichos de informação num glossário do Sebrae de Tocantins, Instituto de Defesa do Consumidor (conteúdo excelente!). Coloquei-me na posição do Josevaldo, plantador de maçãs no interior de SP, e fucei, fucei, fucei. Dos 10 links do Google, aqueles que, sei lá, 1% dos internautas ultrapassam, encontrei apenas um que me deu dicas realmente úteis, e mesmo assim forçando um pouco a barra, pois o artigo (de 2005) não era para mim e sim para atacadistas: “A PIF como solução para o atacadista”
Lembrei-me da história de como as ferrovias nos EUA foram surgindo devagarinho, cada uma ligando 2 cidades, gerando especulações e falências, até que as pequenas ferrovias começaram a se conectar. Num dado momento alguém teve a genial idéia de criar bitolas padrões para os trilhos e, num processo conturbado de empreendedorismo, fusões, golpes financeiros e criação de padrões (e, claro, não faltou a corrupção , daquelas de humilhar a nossa), eis que surge a rede ferroviária, base da revolução agrícola no século 19, que fez do Oeste americano o celeiro do mundo. Assim caminha a Humanidade, diria Hollywood.
Este bonde nós já perdemos, com o rodoviarismo. Mas há os bondes de nosso século. Agora temos pedacinhos de conhecimento que precisam se conectar numa grande cadeia que leve as novidades do PIF para o Josevaldo. Não basta os serviços de extensão rural, que também não sabem o que sabemos. Nem os milhares de gerentes de agências do BB e de consultores do Sebrae. Nenhum deles sabe tudo que sabemos. É preciso construir os dutos da inteligência coletiva, que transportem a descoberta da Embrapa para o Josevaldo e o acompanhem até dar certo. É o que estou chamando de Cadeias de Conhecimento. Sim, no sentido de cadeia produtiva, cadeia de suprimentos, cadeia de valor. Mas poderíamos chamar de qualquer outro nome. O importante é o processo de bombeamento e assistência que leve uma descoberta da Embrapa e o telefone do exportador até o Josevaldo usar. Nenhuma instituição sozinha é capaz de fazer isso, se não se organizarem em cadeias, por um lado, e se não tivermos o fluxo nessas cadeias funcionando através de redes sociais: pessoas que se conhecem e se comunicam.
Ah, se o Josevaldo Secretário de Segurança Pública soubesse o que Bogotá e a nossa São Carlos (SP) já sabem sobre prevenção da violência urbana!
Pois é, acredito ser este o desafio desta geração (ou seja, 3 décadas): construir as cadeias de conhecimento e fazer a inclusão do Josevaldo nessas cadeias – bem mais do que inclusão digital – através de uma rede social que chegue pulsando até ele. É, o grande empreendedorismo nas organizações e na sociedade é preciso.
Acho que este é o grande desafio da gestão do conhecimento: bicar por dentro a casca do ovo, tal qual o Abraxas de Herman Hesse, e peregrinar pelo ecossistema de cada empresa ou instituição, construindo as cadeias de conhecimento que precisamos. Mais que construir redes: é a rede e mais a bomba que tira o conhecimento do berço esplêndido e o faz fluir através do duto. Tudo por fazer: processos, negociações, direitos autorais, parcerias, evangelização, cultivo, gestão…
Iniciei com Raul Seixas e termino com Milton Nascimento: para a inteligência societal, não basta simplesmente compartilhar. Todo artista tem de ir aonde o povo está. Em tempo: o que tudo isso tem a ver com intranets e portais? Sócrates responderia com outra pergunta: afinal, se não for para isso, para que servem mesmo intranets e portais?
(publicado originalmente na coluna Gestão do Conhecimento, do Intranet Portal, em 11 de dezembro de 2007)
