Cantada a um Cabeça Branca
“Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor”
Pois é, mano. Fui dormir ontem, depois de conversarmos longamente por telefone, 6 meses depois de nosso papo mais recente. Acordei pensando em você. Sentimentos quentes. Amor? Ou apenas um ponto no holograma, como Edgar Morin enxergou a vida de seu pai?
Agora o amor está chamando, cantando coisas de amor.
Eu procurava um clone para dar conta das demandas que não consigo abraçar todas. Em vez de um clone veio um gêmeo. Felizmente, pois um clone traria todos os meus defeitos.
Um gêmeo. Nascemos no mesmo ano, na mesma rua. Xixi juntos na mesma creche. Brincamos juntos no Jardim da Luz, as mães conversando, ambas tinham o mesmo nome. Quem me deu o primeiro empurrão na bicicleta foi o Jean Claude, cujo pai tinha a lojinha no térreo do seu prédio na Rua da Graça.
Escolas diferentes. Mas nas férias nos encontrávamos em Santos. Depois ficamos muito distantes. Ele namorador e frequentador das baladas, perfume Lancaster, eu careta tocando violino. Mas muito em comum: no meu exame para a Sinfônica Jovem Municipal que estava sendo fundada, toquei uma canção dos festivais da Record, era 1965, Viola Enluarada (talvez pelo convívio com ele, como posso hoje saber?) Nos reencontramos pra valer depois do vestibular. Mesma escola de engenharia, colando muito, ambos Engenharia de Produção, ambos na campanha do Millor para nosso paraninfo (perdemos para o Reis Velloso, hoje grande cara, mas naquela época sem tons de cinza só podíamos ver como cara do Médici). Ambos juntos no grupo de leitura do Capital, na casa do Paul Singer. Estágio juntos, ele me levando para o trabalho na garupa de sua moto de 50 cc.
Mesmas inquietudes políticas. Aliás, o seu enveredamento pela esquerda, que se deu através do amor, foi o que também me puxou para meu início de militância – por empatia, que é assim que a gente se transforma. Ambos em busca de uma saída pela tangente para humanas, pois o que ambos mais curtíamos na escola de engenharia eram as aulas de filosofia do Vilem Flusser.
Depois, muitas baladas juntos, e eu empurrava os carrinhos de bebê das meninas, que mais tarde seriam babysitters dos meus meninos. Quando viajavam, eles, cúmplices, nos davam a chave do apartamento para cometermos o que na época eram transgressões contra os bons costumes.
Um dia de grande intensidade, há 35 anos, quando ele deixou a família e eu a namorada, e fomos, mochila nas costas, a Campos do Jordão, dormimos ao relento, comemos o melhor arroz com feijão de minha vida na cozinha dos fundos do Vila Inglesa. A viagem toda cantando canções de Noel, Pixinguinha e outros ancestrais. Foi o momento de meu encantamento com a MPB.
Depois, 7 anos, eu na Bahia operando fábrica, e ele participando dos primórdios da administração de ciência e tecnologia, na USP, quando nascia o PaCTo. Foi para o MIT. Quando voltou, fui eu para lá, me encontrar no seu rastro. Coração pulsando ao ver o prédio onde ele morou em Brookline e imaginar as meninas brincando no playground. O paper que ele escreveu há exatos 30 anos é o que responde às questões de meu cliente hoje. Fomos discípulos dos mesmos mestres: Schein, Beckhart, Van Maanen, Peter Senge.
Além dos mestres, herdei seu melhor amigo em Boston, Mike, rabino, professor de crítica cinematográfica na Brandeis, o Mike que, então membro do Rabbis for Human Rights, sem querer nem saber, me catalisou por um email a enveredar na rede mundial pela paz e pelo fim da ocupação na Palestina, o Mike que é até hoje meu link mais profundo com o que há de mais sublime no judaísmo.
Ah sim, falei Brandeis? Sincronicidades jungianas, e evidência de como os afetos fluem em rede. Meu último tweet, dias atrás, não pôde levar em seus 140 caracteres a emoção de citar Louis Brandeis, juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos entre 1916 a 1939, a respeito da rima Sarney-Khamenei: “A luz do sol sempre foi o melhor detergente social”.
E assim fomos pela vida, num movimento pulsante de sístole-diástole, nos afastando e encontrando. Às vezes anos sem falar, para no primeiro reencontro tudo continuar de onde tinha parado, compartilhando alegrias, incertezas, bom humor e tristezas com a perda de seres queridos .
Quero você comigo. Seus saberes, intuição, humor, inventividade, calor, memórias, nossa identidade, telepatia, amor, brilho, olhar irônico… Inteiro.
Sonho trazê-lo de volta da aposentadoria, talvez com ímpeto mudancista maior ainda do que tínhamos quando fomos juntos ao velho Cebrap da Rua Bahia em busca de nossas saídas pela tangente. Por que não agora? O slide 17 do “Nativos Digitais” do Wolney diz que nós babyboomers somos 26 milhões, 14%, o que não é pouco. Se lembrarmos do Raul (”dizem que a gente já era…baby, a gente nem começou”), se nós 1% dos boomers que não deixamos de sonhar, ou seja, 260.000, soubermos trazer nossos sonhos para a mesma ciranda… E 1% desses 1% bastariam… Por que não darmos esse exemplo para a Debbie, o Luizinho, a Luara e o Gabriel do meu lado, e para os seus netos do seu lado, cujos nomes não consigo lembrar, ninguém é de ferro…
Nós, babyboomers “cabeças brancas” que podemos responder às demandas por formação de gente que saiba superar nosso atraso, nós que já tomamos todas… que tal enredarmos os nossos saberes, corações e mentes para essa nova odisséia dos 30 anos… que começam hoje…
Bom, se a cantada não funcionar… o Henfil lá em cima talvez lembre: terá valido a intenção da semente.
Mas insisto na cantada, compartilhando o sonho, e lembrando: sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é realidade.
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Aproveitando o poema, agora é com o Chico, nas nossas discussões com Deus:
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada, sorriu
A rosa triste que vivia fechada, se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivi escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Que nada, Chico: a banda não passou.
A banda somos nós.

1Arie Storch
wrote on 7 julho 2009 at 9:27
Às vezes, mesmo sem darmos conta, acho que escrevemos belas linhas nos nossos livros, e o que parecia andar na areia é na verdade marcado na rocha. Se algum dia fizerem uma coletânea dos teus pensamentos, esse texto já está selecionado!
2Lea
wrote on 9 julho 2009 at 2:25
Cara, deu umas saudades…e cadê esse amigo de nascença que tão forte fez /faz parte de nossas vidas?
3Iuri Pereira Storch
wrote on 13 julho 2009 at 17:28
Bonita declaração de amor, pai!
Espero que a banda demore para passar, e pessoas como você, cabeças-brancas, continuem nos inspirando por muito tempo.
4Noldin
wrote on 17 julho 2009 at 9:16
Belo texto Sérgio, parabéns!
Me interessei vendo o link no seu email e, confesso, me surpreendi e me identifiquei! Acredito que muitos tenham amizades como a sua, cheias de amor e vai-e-vem, que precisam ser compartilhadas.
Espero que a cantada funcione e a “banda” ganhe um componente de peso!
abraços, JN.
5bacellar
wrote on 6 agosto 2009 at 13:10
Tenho a nitida sensação, como cabeça branca, que nos conhecemos nestas quebradas de Higienópolis e marias Antonias. As aspirações e sonhos são os mesmos até hoje. O brilho nos olhos, o tesão em viver, rever amigos e amores percebi logo na primeira reunião.
A militância, anos 70 e a crença no ser humano também traz uma identidade. Cabeças e barbas brancas arduamente adquiridas e orgulhosamente exibidas.
Odes a amigos quase cantatas de anjos e satiros emocionam e trazem uma alegria aos homens e mulheres( bibliotecárias e as demais).
Interessante a menção à MPB: eu que na época só tinha olhos para monk miles mingus , king crinson, premiata e gentle giant, aprendi a ler as entrelinhas dos tempos cinzas com a rachel rolnik e sua irmã no exílio.
Andanças com vito mandilovitch( fabricante do nosso primeiro amplificador de baixo – o berda) e vasco caldeira em busca do caldo verde da major sertorio .
Continue emocionando cabeça branca.
6Sérgio Storch
wrote on 31 agosto 2009 at 23:42
Oi Marcelo
Desculpe que só agora li o seu comentário, pois meu blog estava infestado de spams.
Obrigado. Tá lá publicado. Leia os novos posts.
Um abraço
Sérgio
7Sérgio Storch
wrote on 31 agosto 2009 at 23:43
Olá Noldin
Desculpe, pois só agora li o seu comentário. O blog estava infestado de spam, e finalmente consegui eliminar.
Tá lá publicado, com atraso.
Um abraço
Sérgio