Empreendedorismo … capital intelectual… Oriente Médio – 2

Leia os demais posts desta minissérie:

  1. “Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede”
  2. “Oriente Médio, um contexto de novas possibilidades”
  3. “Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender”
  4. “Empreendedorismo e sua ancestralidade no Oriente Médio”
  5. “Brasileiros comem pelas beiradas. Vamos adotar Gaza?”
  6. “Jogue também sua garrafa ao mar”

Oriente Médio e oportunidades para o Brasil

Mudanças profundas no Egito após 60 anos do fim do colonialismo britânico. Inicialmente décadas de um nacionalismo escorado na demonização de Israel, o inimigo eleito por Nasser (um Chávez na época em que os Chávez ainda não eram patéticos). Após as derrotas militares em 1967 e 1973, outras décadas de ditaduras  que mantiveram seu povo na miséria, de forma análoga a quase todos os países árabes.

Detalhe significativo da crise do Egito atual: não se falou em Israel.  Não há mais a culpa do outro, aquele que deve ser eliminado. Um salto para a maturidade de um povo que deixa de precisar de um Pai Protetor. Agora é a busca de transformações internas (Roger Cohen, “Os árabes e o fim da vitimização”, 4/2/11).

Não é aqui o lugar para aprofundarmos essa história. Nem é minha competência. Mas meu guru na ciência das redes, Augusto de Franco, encanta ao dizer que “eu guardo meu conhecimento nos meus amigos” e porisso não hesito em brindar os leitores com a excelente síntese produzida pelo querido professor Henrique Rattner – “Fogo e tempestade no mundo árabe”, do qual tomo emprestado o parágrafo a seguir:

“A onda de protestos e manifestações que varre o mundo árabe proporciona ao ocidente a oportunidade de mudar sua atitude de hipocrisia de apoiar com bilhões de US dólares e fornecimento de armas sofisticadas aos regimes claramente obsoletos, necessitando urgentemente de reformas profundas. O pêndulo da História está em pleno movimento, evidenciando ventos de mudança no mundo árabe, inclusive nas monarquias reacionárias da Arábia Saudita, dos Marrocos, da Jordânia e dos Emirados”.

Dezenas de jornalistas, analistas políticos e de relações internacionais nos trarão seus cenários de futuro nas próximas semanas. Mas a sensibilidade dos artistas é portadora do pensamento complexo, que admite o contraditório e rompe com a lógica aristotélica do “Terceiro Excluído” (“ou é isso OU aquilo, não dá para ser isso E aquilo”), com a qual sofremos lavagem cerebral ao passarmos pela escola e crescermos no mundo do trabalho.

E os artistas sabem que “a vida vem em ondas, como o mar” (Lulu Santos). Com todas as análises que receberemos dos analistas, a síntese do que virá no Oriente Médio depende de fatores que somos incapazes de prever.  O mesmo Roger Cohen, do New York Times, avisa que esse Fla-Flu pode dar tanto Teerã de 1979 quanto Berlim de 1989 .

Os analistas nada ingênuos da CIA, do Mossad e de outras agências de inteligência produziram milhares de informes nos últimos anos, e apesar dissoos seus governos não estavam preparados para os acontecimentos atuais no Egito e nos demais países para onde a revolução democrática árabe se irradia.  Estamos na era da economia da atenção. Inteligência não é ter a informação, é dar atenção à informação relevante. Estava na cara para todo o mundo que ali havia um caldeirão prestes a explodir, mas o que se costuma chamar de “inteligência” mostrou-se incapaz de processar os sinais fracos que estavam à vista para todos. Por que? Pedirei ao amigo Frédéric Donier, expert no assunto, que venha comentar isso aqui com link para seu blog.  É dos bons. Não deixe de ler os comentários, pois também a minha inteligência está nos meus amigos.

Construindo o futuro

Futuro não existe. Ele pede para ser construído. Como ele não está escrito nem nas estrelas nem nos informes dos analistas nem nas teses de doutorado, é razoável presumir que neste futuro do Oriente Médio haverá, para os interesses brasileiros, um espaço ainda a ser construído. E nós somos atores neste processo. Ou não. Depende não de intelectuais, e sim de empreendedores (no sentido lato de empresas, agências de governo, ONGs, países… empreendedores).  Bem antes de se criar essa palavra estranha (“empreendedorismo”) a quarta tese de Marx sobre Feuerbach (1845) já falava disso:  “Filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; mas o que importa é transformá-lo”. O velhinho é atual.

Falarei no próximo post sobre as oportunidades que vejo para o Brasil na conquista de um mercado para serviços nobres produzidos pelo nosso capital intelectual. Ou seja, pego o gancho para desde já recorrer a parte desse capital intelectual: a riqueza da nossa poesia e da nossa música, que perguntam  QUAL É A PARTE QUE NOS CABE NESTE LATIFÚNDIO?

Veremos no próximo capítulo: amanhã mudamos de marcha…

6 Comments for “Empreendedorismo … capital intelectual… Oriente Médio – 2”

  1. 1Hilton

    Uma coisa boa que esses paises podiam importar do Brasil é o sistema de Bolsa Família.
    Um sistema de inclusão social e distribuição de renda ligada à educação, à vacinação das crianças, etc…
    O Senador Suplicy tentou vender essa idéia para o Iraque pós invasão americana.
    Por que esse pessoal não copia as coisas boas???

  2. 2Geraldo Coen

    O ponto central nesta mini-série para mim é a idéia de inteligência. Aleluia! Finalmente alguém sugere fazer alguma coisa “fora da caixa”. Ser inteligente, ou seja, saber se adaptar, ou em linguagem business, aproveitar a oportunidade. Mas mais do que isso, porque existe o oportunista, que vê o lucro fácil (vender cartazes aos manifestantes, vender gás anti-manifestantes à polícia), e existe o inteligente que sente uma possível (possível, não certa) mudança de longo prazo, e constroi soluções de médio/longo prazo.

    No caso do Egito, Bolsa Família a primeira vista poderia ser uma idéia. Melhor do que vender armas. Mas eu pensaria mais. Bolsa Família é uma idéia populista/assistencialista. Populistas todos os regimes árabes são. Vão adorar esta forma de segurar os protestos. Aliás, nem precisam de Bolsa Família, já fazem isso desde o tempo dos faraós, quando faziam os escravos felizes porque tinham emprego construindo piramides, recebiam sua porção de comida no fim do dia. Mas eram escravos e o único a ficar rico era o faraó. A coisa não mudou muito de lá para cá.

    Então o que podemos imaginar para mudar? A palavra que me vem à cabeça é empresa. Pequenas empresas. Uma padaria. Uma fábrica de camisetas (egípcios competindo com chineses com algodão de melhor qualidade e salários tão baixos quanto?). Financiamento para estas pequenas empresas. Micro-crédito. Temos experiência brasileira interessante de micro-crédito. Fazer o pessoal ganhar dinheiro.

    Ou então atacar um outro lado do problema do Egito: a corrupção e o reino da gorjeta. Que impera no Egito a um ponto difícil de imaginarmos, mesmo tendo os mesmos problemas aqui no Brasil. Mas por exemplo conheço uma empresa brasileira que faz data mining orientado a identificar corrupção ou desvio de verbas. Isto ajudaria muito os egípcios. Mas é um campo perigoso.

    Mais idéias?

    Abraços,
    Geraldo

  3. 3Nathalia

    Post provocativo sobre o qual eu não sei (ainda) responder esse “por que” que você nos coloca… agora fiquei curiosa para saber a opinião do se amigo Frédéric Donier, rs

    aguardo o próximo post para saber mais sobre as oportunidades para o Brasil na área!

    abs

  4. 4Sérgio Storch

    Oi Hilton, Gerry e minha doce Nathalia
    Saiu o terceiro post. Vão lá ver…

  5. 5Vivianne Vilela

    Nem sei por onde começar este post colocou fogo nas idéias e causa uma tempestade de pensamentos que nem sei como começar a processar para ver como e se posso contribuir no latifundio.Vou esperar o comentário do Frédéric Donier,enquanto leio o texto do Henrique Rattner…ai ai ai

  6. 6dania schnitman

    maravilhoso texto!

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