3. Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender

terça-feira, 22 fevereiro 2011, 12:23 | Category : Inteligência Coletiva, Inteligência societal, Política
Tags : ,

Leia os demais posts desta minissérie:

  1. “Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede”. “É um mercado sedento de serviços de alto valor agregado. Nós falamos árabe, nós falamos hebraico. Nós temos o melhor voto eletrônico. Nós ensinamos pipoqueiros a fazerem fluxo de caixa. Nós temos engenharia. Temos também e-business. Nós somos insuspeitos para vendermos paz e democracia, enquanto os outros vendem armas.
  2. “Oriente Médio, um contexto de novas possibilidades” onde falei da onda de mudanças que varre o Oriente Médio, e da inexistência de um futuro, que está por ser construído por muitos atores, e a nós brasileiros, na nossa sociedade em rede, cabe um papel. Qual a parte que nos cabe neste latifúndio?

3. Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender

Dirão que deliro. Já sei. Porisso, em vez de um jargão que às vezes encobre o nada, resolvi traduzir em miúdos, aproveitando a conversa que tive com minha nora no sábado passado, às 5 da madrugada. Eu a levava com meus netos, da Granja Viana para a despedida no aeroporto. Luiz, de 4 anos, cantando “O orvalho vem caindo” (o bichinho gosta de Noel), curtindo o clarear do dia, o frescor do ar pela janela, e eu conversando com ele sobre as cores mutantes das nuvens com os raios do sol. Momentos de eternidade num diálogo leve e gostoso:

- Tati, estou escrevendo um post dizendo que o Brasil deve adotar Gaza. O Brasil deve ajudar o povo de Gaza.

- Sérgio, você já viu a miséria que existe no Brasil, aqui, agora? Como é que você tem essas idéias de que o Brasil deve ajudar outros países? (parêntesis: a Tati não é a única a expressar essa impaciência com minhas “viagens”. Aprendi a conviver e me divertir com a imagem de “desfocado” daquele personagem do Robin Williams no filme do Woody Allen. Nas baladas com os filhos damos muita risada com isso).

- Tati, nós temos, por exemplo, o SUS (ver  Licoes aprendidas SUS-SUSP)

- Sérgio, você já precisou alguma vez do SUS? Você já teve que ficar dias na fila para poder agendar uma consulta médica para daqui a alguns meses?

- Tati, o SUS não funciona mesmo. Mas é porque o governo, em vez de contratar médicos, fica acumulando reservas em dólar, o que custa muito caro, e tem aumentado a concentração de renda nas mãos dos 1% mais ricos (ninguém diz isso, mas veja neste artigo do Sílvio Cacciabava, no Diplô). Com essa grana toda, que os mais ricos então gastam em helicópteros, griffes e na Daslu, poderíamos ter mais e melhores médicos (e melhores professores e policiais mais satisfeitos). O SUS não funciona mesmo, mas não é por causa do SUS. Todo mundo sabe que faltam médicos e a formação deles se deteriorou. Faz parte da dívida social que no tempo dos tucanos os petistas denunciavam. Agora ninguém denuncia a dívida social. Mas por enquanto deixe de lado  a falta de médicos . O SUS, como sistema, tem muita inteligência, estrutura, muita gente pensou junta durante muitos anos até conseguirmos ter o SUS. É um dos melhores do mundo. Nós temos isso para dar e vender.

- Sérgio, lá onde a gente mora (Lençóis, na Chapada Diamantina), não tem um médico. Por que eu vim ter a Marina aqui em São Paulo? Como é que o Brasil vai dar ou vender, se não tem nem pra gente?

- Tati, o Brasil tem inteligência pra dar e vender. E não é só o SUS. Os povos do Egito, do Iêmen, da Líbia, da Jordânia, da Palestina, e de outros países da região, estão percebendo que precisam de democracia, que podem ter direito à democracia . O Brasil pode ajudar. É verdade que ainda não sabemos bem o que é democracia, até o nosso voto é torto, mas em algumas coisas evoluímos bem. Nosso voto eletrônico é o melhor do mundo, põe no chinelo os sistemas capengas dos Estados Unidos.

- Tem mais, Tati. O Brasil tem um dos melhores sistemas de apoio às micro e pequenas empresas do mundo. Eu li um artigo sobre o desemprego no Egito, que conta como o trânsito no Cairo é um caos pior, e com muito menos carros do que São Paulo, todos buzinando o tempo todo, sem mão e contramão. Nós temos engenharia de trânsito. Imagine o SEBRAE ir lá e ensinar ao Egito o que levou décadas para aprender sobre o desenvolvimento do empreendedorismo. Lembra do Muhammad Yunus, que ganhou o Nobel da Paz por ter criado o microcrédito que transformou a vida de milhões de mulheres que eram desempregadas? Funcionou, não funcionou? O Brasil copiou bem, melhorou, e tem isso também pra ensinar.

Bem, a conversa estava ótima, mas tivemos que encerrar para encostar o carro. Meu filho chegava em outro carro, já estavam atrasados para o vôo, e aqueles abraços apertados e beijos, risada com as crianças, e voltei com as saudades já batendo (êta sentimento bom, tão brasileiro), pensativo, com sorriso nos lábios o tempo todo, enquanto tocava no rádio “Tente outra vez”, de Raul Seixas. Brasileiro tá o tempo todo tentando outra vez.

Saravá, norinha querida, suas perguntas me fizeram explicar para a sua compreensão o que quer dizer capital intelectual, sem usar o  jargão dos iniciados. E fiquei feliz em lembrar no caminho de volta a goiana Cora Coralina:

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina..

É isso aí, Tati, isso é tão brasileiro:

“Mulher rendeira, tu me ensina a fazer renda, e eu te ensino a namorar”.


Aguarde os próximos capítulos:

  1. “Empreendedorismo e sua ancestralidade no Oriente Médio”. Falarei do empreendedorismo desde o sábio Hilel, passando pelo tweet do tio Carlinhos em 1845, raspando por Schumpeter e chegando ao Geraldo Vandré. Gestão do conhecimento tem que dar samba…
  2. “Brasileiros comem pelas beiradas. Vamos adotar Gaza?”
  3. “Jogue também sua garrafa ao mar”

Continue comigo…

2 Comments for “3. Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender”

  1. 1Otto Pohlmann

    Sergio,

    Uma vez, de manhã cedo num transito danado, uma emissora de TV entrevistou o Adib Jatene (que pelo que entendi foi um dos idealizadores do SUS-SUSP), que em menos de 15 minutos deu uma aula sobre o SUS que me deixou muito orgulhoso de ser brasileiro. Impressionante como um país periférico como o Brasil conseguiu desenvolver e implantar um modelo de saude que de fato poderia servir de exemplo para 95% dos paises do mundo, mas que por uma série de incompetencia nossas (dos brasileiros), nao funciona como poderia funcionar.

    Será que nesta sua cruzada por esclarecimento, voce não poderia publicar qual é a idéia do modelo do SUS para que mais gente o conheça e que possamos fazer a nossa revolução pela saúde obrigando o governo a fazer um sistema tão maravilhosamente concebido funcionar?

    Não sei se voce é amigo do Adib Jatene, mas talvez ele ou alguem que conheça muito bem a ideia do SUS possa escrever o que o Adib tão professoralmente explicou em 15 minutos?

    Acho que seria uma grande contribuição, a partir da qual nós brasileiros poderiamos nos mobilizar para exigir que o sistema funcione?

    Abraços,

    Otto Pohlmann

  2. 2Cláudia Bonfim

    Sérgio,

    Que delícia ler seu post, sabe que quando cheguei na Unicamp olhei para meu orientador e disse:
    - eu tenho um sério problema
    E ele perguntou o que era.
    Eu respondi:
    - Meu coração está dividido teoricamente entre dois homens: Paulo Freire e Dermeval Saviani.
    E porque te conto isso: porque vi que se referes a Freire, mas não somente por isso, porque seu texto é tão gratificante de ler quanto os de Paulo Freire. Gosto de pessoas que se põe inteiras no texto. Gosto destes escritos com o corpo e a alma.
    Afinal como dizia Freire: Gostaria desde já de manifestar minha recusa a certo tipo de crítica científica que insinua faltar rigor no modo como discuto os problemas e na linguagem demasiado afetiva que uso. A paixão com que conheço, falo ou escrevo não diminuem o compromisso com que denuncio e anuncio. Sou uma inteireza e não uma dicotomia. Não tenho parte esquemática, meticulosa, racionalista e outra desarticulada, imprecisa, querendo simplesmente bem ao mundo. Conheço com meu corpo todo, sentimentos, paixão. Razão também.

    É isso ai amigo, posso assim lhe chamar? Viver, aprender e transformar. Eu também acredito nisto!

Deixe seu comentário