Empreendedorismo … capital intelectual… Oriente Médio – 4
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Leia os demais posts desta minissérie:
- “Uma nova diplomacia, para e com a Sociedade em Rede”. “É um mercado sedento de serviços de alto valor agregado. Nós falamos árabe, nós falamos hebraico. Nós temos o melhor voto eletrônico. Nós ensinamos pipoqueiros a fazerem fluxo de caixa. Nós temos engenharia. Temos também e-business. Nós somos insuspeitos para vendermos paz e democracia, enquanto os outros vendem armas.
- “Oriente Médio, um contexto de novas possibilidades” onde falei da onda de mudanças que varre o Oriente Médio, e da inexistência de um futuro, que está por ser construído por muitos atores, e a nós brasileiros, na nossa sociedade em rede, cabe um papel. Qual a parte que nos cabe neste latifúndio?
- “Diálogo sobre o capital intelectual que temos para dar e vender”. Conversando com minha nora sobre as riquezas do Brasil em capital intelectual. As carências no atendimento às necessidades de nossa população não justificam o papel secundário que desempenhamos na exportação de nossa inteligência.
4. Empreendedorismo e sua ancestralidade
O velhinho que meus filhos aprenderam a chamar de “tio Carlinhos” twittou em 1845 essa frase que viria a ser conhecida como a “quarta tese de Marx sobre Feuerbach”. Dizia isso, sem ultrapassar os 140 caracteres:
“Filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; mas o que importa é transformá-lo”.
O Schumpeter recebeu o tweet 100 anos depois, e os seus “curti” e comentários estão lá no GhostBook.
Simples assim. Intelectual não entende de fazer, entende de pensar. Transformar tem a ver não com intelectuais, mas com empreendedorismo.
Sou meio atrevido e voluntarista. But I´m not the only one. Acredito na antropóloga Margaret Mead:
“ Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas engajadas e comprometidas possa mudar o mundo. De fato, nada mais além disso pode tanto…” (Margaret Mead)
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Im ein ani li mi li?
Como Raul Seixas, também nasci há 10.000 anos atrás. Você também, concorda? Habemus historia. Lá atrás eu aprendi com um sábio judeu , Hilel, o seguinte:
“Se não for eu por mim, quem será? (“Im ein ani li, mi li”) E se não for agora, então quando?” E, se somente por mim, o que eu sou? (começou a história de sustentabilidade). E, se não for agora, quando?”
Nada mais do que uma encarnação antiga do Vandré:
“Vem, vamos embora,
que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer”.
Hilel era um rabino tão importante que dele se conta a seguinte historinha: chegou a ele um gentio, depois de passar pela loja de um concorrente, um tal de Shamai, por quem o gentio não tinha sido muito bem atendido. Perguntava o gentio ao bom Hilel: “Rabino, tenho pressa. O senhor consegue me explicar em conversa de elevador: o que é o judaísmo”? E respondeu-lhe o mestre, olhando para o marcador dos andares: “Não faças aos outros o que não queres que te façam. Todo o resto são detalhes”.
Sim, dizem que foi ele. O Shamai, da loja vizinha, detestava o Hilel. Detesta até hoje. Entre outras coisas, porque o Hilel gosta do povo de Gaza (falaremos disso no próximo post). Hilel gosta de todo mundo. Ele tinha suas partes preferidas da Torá, que falavam da solidariedade aos vizinhos, do amor ao próximo. O Shamai tinha lido outras partes da Torá, em que um Deus vingador mandava matar os inimigos. O Hilel não dava bola para essas partes.
O Hilel não quer que seus discípulos façam ao povo de Gaza o que não querem que lhes façam. E já que vamos falar de Gaza no próximo post, é bom saber que lá em Israel tem a turma do Hilel e a turma do Shamai. Os do Shamai estão no governo fazendo (e falando – mas se fosse só falando tava bom…) bobagens. Os do Hilel fazem sinfônicas e escolas com membros israelenses e palestinos, além de proteger aldeias palestinas das demolições da turma do Shamai . Os do Hilel gostam de conversa, eles sabem que conversa é a base do aprendizado e do conhecimento. Com os do Shamai, não tem conversa. Veja o premiado documentário Budrus, dirigido pela brasileira Júlia Bacha (ói nóis, de novo, exportando capital intelectual…) Taí, Israel tem dessas coisas que o Irã e a Líbia não têm. Quer mais sobre Hilel e Shamai?
Pois é: o velho Hilel ensinava, além disso, empreendedorismo. Como o Vandré e o tio Carlinhos. Se o Hilel fosse explicar o que é empreendedorismo numa conversa de elevador, usaria o “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” do Vandré.
Khalil Gibran, o grande poeta do mundo árabe e muçulmano, ensinava coisas parecidas. Podem ser resgatadas. Saindo um pouquinho da história do empreendedorismo (no próximo post voltaremos a ela), faço um comercial: a turma do Hilel no Brasil começou, num evento da rede Judaísmo Humanista que fizemos 6ª feira passada, com a Analu Lacombe, pesquisadora e contadora de histórias (economia criativa em microempresas: www.fazeconta.art.br contando histórias da dobradinha Martin Buber (um Hilel moderno) e Khalil Gibran. E neste domingo a Analu estará num bistrô contando Clarice Lispector.
Bem, espero ter sido convincente lá atrás sobre as potencialidades do capital intelectual do Brasil nas relações com o Oriente Médio. Para desfrutarmos os benefícios, é necessário empreendedorismo da sociedade brasileira em rede. SE NÃO AGORA, QUANDO?
Falta agora dizer: por que o Brasil adotar Gaza?
Vou dizer, mas agora darei um intervalo de 3 dias para que você possa fazer uma viagem “De Volta ao Futuro”, e ler “Gaza, sensemaking e inteligência coletiva”), que escrevi há 2 anos. É o preâmbulo para o próximo post, e você poderá se distrair com um passeio pela Gestão do Conhecimento.
Não deixe de visitar nessa viagem o filminho que está no post: a turma de Hilel cantando e dançando com a turma do Khalil Gibran. Estão abertas as portas para nosso samba e nossa capoeira em Gaza. O mercado também para nossa economia criativa…
Bem, se você chegou até aqui, agora aguente firme, pois faltam apenas mais dois posts.
5. “Brasileiros comem pelas beiradas. Vamos adotar Gaza?”
6. “Jogue também sua garrafa ao mar”

1Adriana Torres
wrote on 25 fevereiro 2011 at 20:20
Sergio,
li toda a saga. Quero fazer três comentários:
1 – Sobre a inteligência competitiva brasileira: concordo com você que temos diversas excelentes práticas aqui. A Rede Brasileira é uma delas, com todas as suas limitações financeiras, técnicas e humanas. Iniciativas como essa podem e devem se espalhar pelo mundo. Imagine um “Nossa Gaza” que bacana?
2 – Ao mesmo tempo, sem discordar de você, concordo com sua nora. Precisamos também importar boas práticas, principalmente na boa vontade política. É frustrante ver todo o nosso esforço muitas vezes não sair do lugar pelo oportunismo daqueles que detém o poder. SUS, SUAS, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, o escambal poderiam ser sucesso garantido – se o olhar fosse para a sociedade e não para a próxima eleição. Precisamos ensinar isso para os nosso políticos!
3 – Adorei a nova linguagem e forma de postar. Está jovem, leve e bem “traduzida” para os leigos de plantão. Parabéns!
Abraço,
Adriana
2Hilton
wrote on 6 março 2011 at 22:57
muito bem escrito… só que a revolução árabe ainda não chegou em Gaza… os jovens árabes não querem brigar com Israel, eles querem fazer rap… (e se divirtir)
3José Eugênio Grillo
wrote on 14 março 2011 at 11:58
Olá, Sérgio, parabéns pela série e concatenação dos conteúdos, ideias e reflexões. São interações – os comentários também são importantes – desse tipo, com olhares diferenciados, que farão um mundo melhor em todos os sentidos. Complemento com o costumo dizer sobre meus relacionamentos: “escolhi ser uma ponte para alcançar o futuro pois pontes colocam os corações a dialogar”, parafraseando o escritor Eugênio Mussak.
abs,
Grillo
4dania schnitman
wrote on 3 julho 2011 at 1:32
Oi Sérgio,
Não consigo assistir “Budrus” nem o filme que vc sugeriu “a turma de Hilel cantando e dançando com a turma do Khalil Gibran”. É o mesmo documentário? Fiquei curiosa.
Shalom!