Identidade, memória e significado – it´s blowing in the wind
Não conversávamos há 43 anos. Dois ou três papos curtos em saguões de aeroportos. Mas nunca tínhamos tido a oportunidade de um aquecimento, daqueles que fazem uma conversa ser mais do que trivial.
Surgiu a oportunidade. Um negócio que apareceu para mim, mas que a pessoa certa é ele.
- Legal, vamos conversar.
- Tá sem carro? A gente se encontra no meio do caminho.
Mas ele não pôde vir ontem ao encontro.
- Dor de coluna. Tenho fisioterapia às 18:30.
- Peraí, para onde você tem que ir?
- A fisioterapia é na Rua Lisboa.
- Eu vou aí e te levo.
O pessoal de cultura organizacional chama isso de serendipidade. É quando deixamos acontecer no fluxo, sem estar planejado. Paramos num café. Trocamos alegrias e falamos de familiares e amigos, AIDS, suicídio. Tio Luiz, Teodoro, Moishe, Bila, Hadassa, Ana, Dina. Pessoas que habitaram intersecções de nossas vidas, ou que brotaram da conversa, da continuidade de um para preencher descontinuidades de outro. Até um governador de Estado, que eu não sabia que tinha sido do mesmo grupo sionista antes de eu ingressar. Muitos links.
Signos, valores, memórias, pessoas. Desejos, utopias, sonhos ainda.
E rimos muito.
- Você era um nerd!
- Eu? Eu era um babacão!
Reconstituímos a trama e as guinadas de cada um em 43 anos de vida. Desde a memória vívida da esquina, do cheiro, da cor do céu, da cara com que ele gozador, 43 anos atrás, soltou palavras que foram a gota d´água que faltava depois de ter encontrado Marx e Freud no livro de Erich Fromm. Que me levaram à primeira ruptura: tornei-me ateu. Música maestro: “Um velho ateu, um bêbado cantor, poeta, na madrugada, cantava essa canção, seresta. Se eu fosse Deus, a vida até que melhorava, se eu fosse Deus, daria aos que não tem nada”.
Chico, meu menino vadio, minhas discussões com Deus…
Tínhamos sonhado juntos, aos 16 anos, o socialismo sionista e a utopia de um kibbutz urbano em Israel. Descobri 15 anos depois que esse kibbutz existe, na auto-gestão em Mondragon que foi tema de minha dissertação de mestrado. O maior e mais bem sucedido arranjo produtivo local do mundo. E hoje arranjos produtivos locais são meu assunto constante. A dissertação não foi acaso, e ontem descobri a semente.
Memória, sinapses, significado, identidade.
Nos refletimos um no outro. Eu gestão do conhecimento. Ele gestão de processos. E não precisamos falar do negócio que tinha nos trazido ali. “Vamos nos encontrar, pra falar da gente. Negócios a gente resolve por email”.
E saí me perguntando: serão essa liberdade e esse fluxo possíveis na verticalidade de nossas organizações e instituições? Nos diálogos com hora e tempo marcados? Ou esse compartilhamento, em cima do qual qualquer negócio passa azeitado, requer a horizontalidade das redes e a disposição para dançar nas memórias e desejos? Teria rolado se tivéssemos nos encontrado no lugar e hora planejados, e não na base do “eu vou até aí?” Será que os timesheets, frameworks, modelos, PMBOKs etc., não matam um pouquinho do que nos motiva a trocar e construir juntos?
A pergunta que sempre ouço nas organizações: o que fazer aqui para que as pessoas compartilhem o conhecimento? Diria Bob Dylan: “The answer is blowing in the wind”.
Disse Milton naqueles anos, e ouvimos de novo nas diretas-já: coração de estudante. Outros dão o nome de capital social, o link que falta entre as teorias de redes sociais e as abordagens tradicionais de gestão do conhecimento.
É isso aí, como disse o Henfil: a gente ainda nem começou…

1Arie Storch
wrote on 10 maio 2009 at 14:37
Bem legal o seu jeito de escrever! Pelo ritmo, me lembrei de uma crônica que Eduardo Galeano publicou n’O Livro dos Abraços.
Neruda/1
Fui a Isla Negra, à casa que foi, que é, de Pablo Neruda. Era proibido entrar. Uma cerca de madeira rodeava a casa. Lá, as pessoas tinham gravado seus recados para o poeta. Não tinham deixado nenhum pedacinho de madeira descoberta. Todos talavam com ele como se estivesse vivo. Com lápis ou pontas de pregos, cada um tinha encontrado sua maneira de dizer-lhe: obrigado.
Eu também encontrei, sem palavras, à minha maneira. E entrei sem entrar. E em silencio ficamos conversando vinhos, o poeta e eu, caladamente talando de mares e amares e de alguma poção infalível contra a calvície. Compartilhamos camarões ao pil-pil e uma prodigiosa torta de jaibas e outras dessas maravilhas que alegram a alma e a pança, que são, como ele sabe muito bem, dois nomes para a mesma coisa.
Várias vezes erguemos taças de bom vinho, e um vento salgado golpeava nossas caras, e tudo foi uma cerimônia de maldição da ditadura, aquela lança negra cravada em seu torso, aquela puta dor enorme, e foi também uma cerimônia de celebração da vida, bela e efêmera como os altares de flores e os amores passageiros.
2molina
wrote on 22 maio 2009 at 0:21
É, serendipidade, que descobri aqui, acho que tem a ver com maturidade e serenidade …
Thanks
Molina
3Geraldo Coen
wrote on 15 junho 2009 at 9:51
Sérgio, belíssimo texto. Emocionante e inteligente. Gostei muito, me fez pensar bastante.
Grande abraço,
Geraldo
4Edlúcia
wrote on 15 junho 2009 at 22:54
Que bom, suas palavras, estava procurando na internet algum artigo sobre gestores. Seu artigo foi ótimo para eu analizar e tirar as minhas conclusões. Irei visitar sempre que eu puder, valeu !!!
5Sérgio Storch
wrote on 31 agosto 2009 at 23:48
Oi Geraldo
Desculpe, pois só agora li o seu comentário. O blog estava infestado de spam, e finalmente consegui eliminar.
Tá lá publicado, com atraso.
Leia os novos posts.
PS.: estou entrando de cabeça na cultura wiki, e trazendo um produto fantástico para aplicações em ITIL. Quer conhecer?
Um abraço
Sérgio
6marketing web
wrote on 14 setembro 2010 at 14:16
Parabéns pelo blog , gostei muito!
7Sérgio Storch
wrote on 23 setembro 2010 at 22:27
Obrigado, gostei muito também de seu site e do modelo de negócio. Vamos ficar em contato. Siga-me no twitter para ficarmos loosely connected até nos encontrarmos.
Um abraço
Sérgio
8Cláudia Bonfim
wrote on 17 abril 2011 at 14:40
Já dizia Mário Quintana ‘Um bom poema é é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente … e não a gente a ele!’
Seus escritos são assim. Nós dá a impressão que fazemos parte do texto, do contexto… E eu creio saber porque… você escreve com a alma. E como dizia Platão: “Tudo que sai da alma, toca na alma.! Parabéns amigo! E obrigada por nos brindar com teus ensinamentos humanizadores. Abraços!
9Cleide Tavares
wrote on 17 abril 2011 at 20:41
O texto é belo, e relata com leveza, sutileza e simplicidade a força da construção das relações, independente da forma, das circunstâncias e das pessoas, e das metodologias.
Minhas crenças me levam além dos encontros e desencontros, mas sim de afirmar que as sincronicidades do universo fazem parte dos mistérios e descobertas de cada um, e do quanto já estamos prontos para o despertar. As vezes pode levar uma vida toda, as vezes apenas alguns segundos e cada registro desse caminhar e do conhecimento do apreendido e do quanto damos importância ao outro e ao que podemos aprender com ele é uma escolha de casa um, e esta na razão do amadurecimento da alma e da compreensão da missão.
Sérgio adorei ler o texto, e como alguns já disseram acima faz uma conexão diretas com as nossas vivências diárias, dai minha reflexão acima! Abraços!