Visão crítica de “O bibliotecário e a era do conhecimento”
Dois amigos, Levi Bucalem e a Vera Stefanov, escreveram esse artigo no Dia do Bibliotecário. Gostei, mas algumas coisas me incomodaram no subtexto.
Leia e diga o que vc acha da lógica que conduziu a esse fecho: “O bibliotecário se mostrará, assim, indispensável. Quando isso ocorrer, a forma como esse profissional for tratado por empregadores de quaisquer tipos, pela sociedade e pelo legislador representará indicador do grau de civilização que poderemos projetar para nós mesmos. “
As críticas abaixo abrem debate especialmente com o Levi, companheiro de lutas, grande sociólogo, e presidente do IPSO, do qual fomos co-fundadores ao lado de vários amigos da área democrática do Partidão.
Minha opinião. Depois falarei mais no blog:
- há uma queixa implícita de falta de valorização. Meio crônica, faz parte do DNA cultural da profissão (mas tem cura com as modernas técnicas nanocirúrgicas dos modelos mentais…).
- Não entendo o que é que o legislador tem a ver com isso. O reconhecimento profissional virá da solução da crise identitária, pela inteligência coletiva da própria categoria profissional.
- Em vez de apelar ao legislador (parte do modelo mental de crença no poder das leis, tão característico da cultura política brasileira), falta apelar às lideranças no capital institucional da área (universidades, conselhos etc.) para que a formação profissional se adeque às exigências da sociedade do conhecimento. Em vez de ceder à competição neoliberal (guerra de preços, enxugamento de currículos etc.).
É a minha opinião. O que você acha?
TENDÊNCIAS/DEBATES
O bibliotecário e a era do conhecimento
VERA STEFANOV e LEVI BUCALEM FERRARI
|
Hoje, no Dia do Bibliotecário, esse profissional clama pelo reconhecimento social que, todavia, ainda não lhe faz justiça plena aqui no Brasil |
AS CIVILIZAÇÕES têm como marco inicial a palavra escrita, testemunho mais eloquente de qualquer cultura. Na Antiguidade, bibliotecas foram símbolo do prestígio das cidades que as abrigavam.
A partir da invenção da prensa móvel por Gutenberg, aumenta exponencialmente o número de exemplares por livro e surgem os jornais, os fascículos, as revistas. Logo, as bibliotecas demandaram profissionais especializados, na moderna figura do bibliotecário -que desenvolveram sistemas mais eficazes de catalogação, disposição, conservação etc.
A importância de sua contribuição é reconhecida também pela legislação, que apontou a data de seu nasci- mento -12 de março- como o Dia do Bibliotecário no Brasil.
Em 1906, Bastos Tigre viajou para os Estados Unidos, onde conheceu Melvil Dewey, que já havia instituído o sistema de classificação decimal.
A partir de 1945, trabalhou na Biblioteca Nacional e, depois, assumiu a direção da Biblioteca Central da Universidade do Brasil.
Nas escolas a situação é de calamidade pública. Muitas nem sequer possuem bibliotecas. Não raro, é algum professor que se encarrega de organizar o acervo. Em outras, os livros se atulham sob escadas, corredores ou salas inadequadas. O impacto é extremamente negativo na formação dos alunos. Na idade em que a leitura precisa ser valorizada para que seu hábito se cristalize, o estudante vê livros tratados como entulho. Nada o convencerá mais tarde do contrário: o livro permanecerá entulho, e sua leitura, um ato despido de sentido.
Inicialmente, ele terá de interagir em equipes multidisciplinares, em processos de mútuo aprendizado. Aos poucos, sua formação específica haverá de impor-se como peça-chave de funções socialmente tão relevantes. O bibliotecário se mostrará, assim, indispensável. Quando isso ocorrer, a forma como esse profissional for tratado por empregadores de quaisquer tipos, pela sociedade e pelo legislador representará indicador do grau de civilização que poderemos projetar para nós mesmos.
VERA LUCIA STEFANOV, 56, bibliotecária documentalista, é presidente do SinBiesp (Sindicato dos Bibliotecários do Estado de São Paulo).
LEVI BUCALEM FERRARI, 63, cientista político, é presidente da UBE (União Brasileira de Escritores).
