Tirando R$ 1,00 da carteira

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Fui instigado, e já não é a primeira vez, pelo blog do Rodolfo – “Não posso evitar”. Ele critica de forma contundente uma prescrição de 50 ações contra o aquecimento global, cujo autor qualifica como sendo simples e que todos nós podemos ajudar.

Eu às vezes brigo mentalmente  com o Rodolfo, e às vezes levo a briga para nossos blogs. Pode ser que as maneiras não sejam essas 50, mas que há 50 ações em que todos podemos ajudar, e que possam inverter o rumo de muitas coisas em áreas chave como saúde, educação, transporte, segurança, crédito etc., não tenho dúvida de que há.  E resolvi disparar essa, baseada na minha realidade imediata.

Em casa temos um ritual interessante, que a cibernética me levou a criar: tiro 1 Real da carteira para o cofrinho de minha filha, sempre que falo um palavrão. No fim do mês dá pra ela comprar mais uma revistinha,  pois a mesada não é lá essas coisas. E para mim foi a saída para ela me reconhecer o direito de dar vazão a uma indignação de profeta do Velho Testamento quando perdia as estribeiras. Ora, por que não? Até Jesus um dia se descontrolou e expulsou os vendilhões  do templo. E será que não rolou um palavraozinho que os evangelistas depois censuraram?

Funciona. Afinal minha filhota sai ganhando. E eu também. Ganha-ganha ensinado desde o berço.

Bem, vivo falando em QI coletivo: como um conjunto de pessoas individuamente inteligentes pode ter comportamentos coletivos estúpidos. Nada mais fácil para constatar isso do que uma reunião de doutores numa universidade que decide não decidir, ou de gênios numa agência de publicidade, cada um abrigado em seu ego enorme e se recusando a abrir mão de posições que possam levar a soluções mais rápidas e mais generosas.

Vamos ao assunto. A escola de minha filha vive ensinando (ou achando que está ensinando) o blábláblá politicamente correto da proteção do meio ambiente, lixo reciclável etc. Fingem que ensinam, as crianças fingem que aprendem, os pais ficam orgulhosos ao verem os trabalhos da garotada na Feira de Ciências. Nas escolas das redondezas é tudo igualzinho.  E eu, ao observar os carrões que chegam para deixar os filhos na escola ocupando cada um quase 10 metros quadrados de rua, e de vez em quando até apertando aquela buzina em que um sozinho consegue infernizar a vida de todos em redor, fico imaginando o quanto essas escolas estão se autoenganando ou enganando às próprias crianças, o que é muito pior.

Num dia da semana passada, casualmente, observei uma coisa que me levou a pensar na moedinha de 1 Real. 4 carros saindo da garagem no intervalo de 5 minutos, cada um com um pai ou mãe a levar seu pimpolho para a escola. Nos mesmos 5 minutos,  do mesmo lugar, para a mesma escola.

Veja: SÃO pessoas bacanas, sorridentes, afáveis, boa gente mesmo, a gente conversa no elevador. Nada contra, individualmente.

Mas ao ver o quarto carro saindo da garagem, tirei a moeda de 1 Real da carteira, e pronunciei um  VÁ PA… você já adivinhou o resto da frase…

“Filhota, toma mais essa moedinha. Você sabe o que é o direito à indignação?”

Meus leitores, meus clientes no mundo corporativo bem educado:  perdoem meu descontrole. Mas pensem aí com seus botões: será que no prédio de sua  empresa com 5000 funcionários, aí na Berrini superlotada, não tem um bocado de gente que vem, cada um com o seu carro, do mesmo quarteirão, nos mesmos 15 minutos?

Que tal agregar ao programa de sustentabilidade da sua empresa uma ação afirmativa que estimule a carona solidária? É o tipo da coisa que, deixada a cada um, não rola. Mas, com um esforçozinho corporativo que use as suas ferramentas Web 2.0, Sharepoint, Notes, Twitter etc,  para fazer os caronistas aparecerem e ficarem bem na foto, será que não dá para, de repente, mudar essa microsociologia do individualismo indiferente ao resto do mundo… E de repente isso muda o comportamento de algum vizinho meu que trabalha na sua empresa.

Você imaginou se todas as empresas com programas de sustentabilidade fizessem isso? Imaginou as conseqüências agregadas sobre a parte dos automóveis no PIB? Imaginou um gráfico daqui a 1-2 anos mostrando a queda nas compras de automóveis por parte dos funcionários, comparada com a mesma KPI (indicador chave de desempenho, para os não habituados com o corporatês) de outras empresas que esposam os mesmos princípios?

Porque poucas pessoas param para lembrar que o aumento no tempo que passam no trânsito é diretamente relacionado com o carrão novo que comprou mês passado, somado a todos os carrões comprados por outros consumidores felizes como você.

Daí porque os programas de sustentabilidade das empresas poderiam dar uma estudadazinha nos conceitos de Felicidade Interna Bruta – FIB, que começam a colocar em cheque o PIB. Para que precisamos de um PIB que aumente com a fumaça, as buzinas e o tempo no trânsito?

Está nas suas mãos, empresário. Vamos bater um papo sobre isso? Que tal bolar alguns processos para essas coisas acontecerem?

Aproveite e leia no fim de semana sobre o balanço do uso do tempo.


4 Comments for “Tirando R$ 1,00 da carteira”

  1. 1Rodolfo Araújo

    Caro Sérgio, mais uma vez sinto-me honrado com a lembrança do meu blog. Brigo com essas ondas de politicamente correto – tendo a atual travestido-se de ecologia – porque as pessoas confessam seus pequenos delitos para livrarem-se com os grandes.

    Seu exemplo dos carros na porta da escola é ótimo porque revela a face comodista do ser humano, pouco comprometida com os ideais que propaga pela outra janela.

    Uma pesquisa americana mostrou que 1/3 dos proprietários de Prius (o carro elétrico da Toyota) têm uma SUV. E Dan Ariely já mostrou que as pessoas cometem verdadeiras atrocidades depois de um mísero ato bondoso.

    Já a minha crítica aos 50 pontos para melhorar o planeta é que eles estão errados e, no bottom line, mais atrapalham do que ajudam. São medidas onde o ator posa de bonzinho mas deixa um indelével rasto de destruição com sua pseudobondade. Falta senso crítico aos que propõem e aos que (cegamente) seguem.

    Ainda bem que estamos alerta! Um abraço, Rodolfo.

  2. 2Sérgio Storch

    Oi Rodolfo, desculpe a demora. Minha configuração de notificações falhou.

    Não sei se temos uma divergência. Creio que não, mas suspeito que talvez. Torno então clara a minha posição: embora aplaudindo a sua crítica ao bom-mocismo simplista, acho que devemos separar o joio do trigo, e também sermos proativos na tomada de iniciativas que promovam a inteligência coletiva. Por exemplo, uma campanha do tipo “não compre mais um automóvel. Venda o seu”!, e que lastreemos essa campanha com estudos e pesquisas de planejamento urbano, e do quanto nossa qualidade de vida nas cidades se deteriora a cada novo carro que entra em circulação.

    Acho que a questão da mobilidade urbana, em especial, pode contar hoje com toda a parafernália de mobilização que se mostrou efetiva nas flash mobs que derrubaram o governo das Filipinas, quase derrotaram o golpe de Ahmadinejad etc.

    Ou seja, minha posição pessoal é de militância, e eu gostaria muito de tê-lo como companheiro na luta, talvez quixotesca, por uma inteligência societal. Cada um com os instrumentos que tem à mão. Pretendo fazer esses microfragmentos de discussão na web relativos a este tema desembocarem num evento dentro do nosso KM Brasil 2010 (19-21/10 em Porto Alegre), na trilha Gestão do Conhecimento no Desenvolvimento Regional, Metropolitano e Urbano, que coordeno na SBGC.

    Um grande abraço

    Sérgio Storch

  3. 3marketing web

    Acredito que ainda vai levar um bom tempo pras pessoas começarem a realmente agirem de forma mais consciente, estamos caminhando mas falta muito…..

  4. 4Sandra Gomes

    Olá Sérgio!

    Vim fazer uma visita ao seu blog e me deparei com este assunto, achei muito interessante porque este sistema de captação de dinheiro para cada ato de indignação em relação ao individualismo dos motoristas particulares. Em Porto Alegre isto já acontece a muito tempo,mas agora ficou pior, com a facilidade para se comprar carros novos, os portoalegrenses, falo também dos gaúchos da Grande Porto Alegre, saem de casa um em cada carro, ninguém mais dá carona pra ninguém, a moda é andar sózinho. Meu vizinho tem três carros na garagem, digo, dois estão no quintal, o coitado não tem nem onde guardá-los direito.
    Mas tudo tem um preço, as ruas são estreitas, não há espaço para estacionar tantos veículos, ocorre engarrafamentos diários, atrasos, transtornos, acidentes. O governo fecha os olhos e se faz de louco, poderia com o IPVA de cada carro dar um jeito nas avenidas e ruas, construir viadutos, mas que nada. E ainda quer trazer a Copa do Mundo pra cá, de que jeito se quando chove até os taxitas somem. Pois é, meu amigo, se cada carro que saísse de casa tivesse que pagar uma moedinha ainda assim nada funcionaria a contento, sabe porque? O ingerenciamento administrativo é muito grande e caótico e os individualistas sempre pensam que enquanto não estiverem sendo atingidos diretamente estará tudo bem.
    Eu particularmente ando de ônibus, desde sempre, nunca tive um carro, sempre gostei. É mais seguro e muito urbano, também preciso ter contato com a sociedade, observar as pessoas, como elas se vestem, falam, se comportam, andar de ônibus me faz me sentir mais viva socialmente. Sempre busco colocar aos meus alunos o quanto é importante agirmos socialmente, somos seres inteligentes, mas fingir que os outros não existem e tentar levar a melhor é burrice.

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