Uso múltiplo da água e do conteúdo
Quero fazer um paralelo de dois desafios análogos: o uso múltiplo da água, na sociedade, e do conteúdo, nas organizações.
O conceito de uso múltiplo me apareceu num projeto recente para um operador do setor elétrico, onde aprendi que as ações desse operador na gestão do nível das represas são limitadas pela necessidade de assegurar o equilíbrio com outros usos da água. Ora, a água serve para tantas coisas além de gerar eletricidade: uso humano, irrigação, passear de barco a vela, turismo enfim… Água é PIB potencial. O que falta para que se converta em PIB real?
(Deixo para outro post a instigante discussão sobre a obsolescência do PIB como métrica de riqueza. Enquanto isso, para seu deleite, leia “Muito Além do PIB” ).
Voltando para o o uso múltiplo da água. Em outro projeto, aprendi que o lago da barragem de Serra da Mesa, em Goiás, é o maior lago do Cone Sul, podendo ser utilizado para um volume tal de produção de peixe, que pode alimentar toda a população brasileira e até mesmo mudar os hábitos alimentares de nossa sociedade. Ou seja, usá-lo para apenas produzir energia é um enorme desperdício.
O que falta para que passemos a produzir essas proteínas de custo e impacto ambiental baixíssimos?
Ainda em outro projeto, numa empresa de serviços de alta complexidade, consciente de que o seu valor consiste basicamente no capital intelectual contido na sua experiência e no potencial de seus funcionários, constatei que os conteúdos de currículos dos profissionais podem atender a diversos processos críticos, além das necessidades da gestão de pessoas. Por exemplo, eles são imprescindíveis para a rapidez na elaboração de propostas em grandes concorrências. Podem também ser utilizados, dependendo de como os dados são organizados e tabulados, para o planejamento de treinamento, para o planejamento de sucessão, para o foco comercial em projetos compatíveis com as competências da empresa, e até mesmo para a avaliação financeira do valor da empresa, em que os chamados ativos intangíveis são a cada dia mais reconhecidos como o principal componente do valor.
Numa outra instituição, que atua em serviços de extensão tecnológica, o desempenho depende da agilidade em identificar os consultores terceirizados mais apropriados para cada tarefa, mas o acesso aos currículos desses profissionais está involuntariamente trancado dentro de um sistema hermético, no qual as possibilidades de busca são extremamente limitadas.
Ora, se há consenso nessas empresas em que estamos na era do conhecimento, e que o capital humano é componente fundamental do valor da empresa, o que falta para que o uso múltiplo desses conteúdos seja potencializado e passe a multiplicar o valor desses ativos?
Acredito que, em ambos os casos, dos o usos múltiplos da água e do conteúdo, a resposta esteja na seguinte combinação de fatores:
- Aplicação do entendimento de Von Clausewitz, estrategista militar de Bismarck, de que “a guerra é importante demais para ser deixada aos generais”. Da mesma forma, a água é importante demais para ser deixada às geradoras de energia, e o conteúdo gerado nas empresas é importante demais para permanecer fechado nos registros dos projetos ou processos onde tenham sido produzidos. Isso vale para para os conteúdos contidos em currículos, revistas técnicas, atas, relatórios de projeto, pesquisas e diversos outros documentos e arquivos em áudio e vídeo.
- Construção de uma governança, seja na água ou no conteúdo, que empodere as múltiplas áreas ou instituições que possam gerar valor a partir desses recursos: no caso da água, os planejadores de desenvolvimento regional, os poderes locais, os empreendedores em piscicultura e em turismo etc. ; no caso de conteúdos, especialmente as áreas que possam identificar oportunidades a serem desenvolvidas com os mesmos. Currículos, por exemplo, podem servir para a área financeira valorizar e comunicar ao mercado os ativos intangíveis da empresa, e assim produzir impactos no valor das ações no mercado.
- Construção de cadeias de conhecimento com processos ativos de identificação, análise e o bombeamento de idéias, experiências, perguntas e respostas (principalmente as perguntas, como Rilke aconselhou nas suas “Cartas a um Jovem Poeta”). Não fui original ao intuir o conceito de cadeias de conhecimento: embora pouco explorado nas discusões de gestão do conhecimento no Brasil, descobri no Google que essa expressão já é bastante utilizada – veja por exemplo o interessante paper “The need for knowledge chains in construction”. Acredito que a criação de cadeias de conhecimento intra e inter-organizações seja a fronteira mais interessante a ser desbravada com apoio das novas mídias sociais, como os wikis, twitter e os ambientes de relacionamento tipo Orkut.
Uso múltiplo: talvez a palavra chave para amolecer o coração dos “donos” dos conteúdos onde talvez se encontrem possibilidades de tornar mais ágeis e inteligentes diversos processos críticos nas organizações.
Vale destacar que essa preocupação talvez se some a aquelas já presentes no Critério 5 – Informações e Conhecimento, do Modelo de Excelência em Gestão (MEG), da Fundação Nacional da Qualidade.
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CAMPANHA: Aproveito para divulgar, a propósito, o ato público do Instituto Ethos e do Movimento Nossa São Paulo, contra o desmantelamento da nossa legislação ambiental, caso a Medida Provisória já denominada Lei da Grilagem não seja vetada pelo presidente Lula. Saiba mais… Vamos nos ver lá?

1Marcia
wrote on 5 julho 2009 at 20:51
Adorei o paralelo. Diria que o conteúdo escorre pelos dedos abertos, como a água da torneira. Inconsciência do desperdício. Ignorancia da fartura e excesso de comedimento. A água é farta no bom uso. O conteúdo idem. Mas ambos são ameaçadores na manifestaçao exponencial.
2Lígia Pamplona
wrote on 9 setembro 2009 at 14:22
Muito bom o artigo! Estudo bastante em como romper essas barreiras entre a gestão de conteúdo e a gestão de conhecimento, de maneira a desburocratizar e de fato torná-las instrumental de desenvolvimento e inovação tanto para as organizações como para a sociedade em geral. Vamos disseminar essa informação que não é nenhum bicho de 7 cabeças! Está de parabéns!
3Antônio Félix Domingues
wrote on 12 agosto 2010 at 15:36
Caro Sérgio,
Parabenizo-o pelo seu interesse sobre gestão de águas no Brasil, manifestado por intermédio do seu blog.
Nos últimos 15 anos, posteriores às Conferências da ONU 1992, ocorrida em Dublin e no Rio de Janeiro, o Brasil tem avançado muito na construção da Política Nacional de Recursos Hídricos, especialmente com a aprovação da Lei 9.433/97 e com a criação da ANA em 2000, pela Lei 9.984.
Sabe-se que hoje o Brasil dispõe de um moderno aparato institucional liderado pelo Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos, com papéis específicos para os governos federal e estaduais, para os Comitês de Bacias Hidrográficas, que são compostos pelo poder público, setores usuários e sociedade civil, para os Conselhos Nacional e Estaduais de Recursos Hídricos e para as Agências de Bacia.
Os principais pilares sobre os quais se assenta a Política Nacional de Recursos Hídricos são aqueles que dizem respeito à definição da água como bem público, e à premissa dos usos múltiplos, em que todos os setores usuários (saneamento, agricultura irrigada, aquicultura, navegação, geração de energia elétrica) independentemente da sua força política e/ou econômica, têm a mesma importância no acesso do uso da água.
Permito-me fazer, rapidamente alguns comentários sobre o seu texto:
1. Para a produção aquícola é mais importante uma grande superfície e o tempo de renovação da água no reservatório, dentre outros parâmetros, do que o volume deste.
2. O lago de Serra da Mesa é um importante reservatório para o desenvolvimento aquícola, com a superfície de 1.784km2. Entretanto, o lago de Sobradinho tem maior extensão: 4.200km2.
3. O potencial de produção aquícola no Reservatório de Serra da Mesa estimado pela Agência Nacional de Águas é de 65.500 toneladas por ano.
4. Segundo dados apresentados na publicação de 2008, intitulada “Aqüicultura no Brasil – o desafio é crescer”, em um cenário positivo, a produção aquícola nacional pode atingir uma produção total de cerca de 757.000 toneladas, nesse cômputo estão incluídos peixes, moluscos e crustáceos.
5. A Agência Nacional de Águas tem emitido outorgas de direito de uso para parques e áreas aquícolas, com cuidados para a manutenção do estado trófico da água dentro de limites seguros, com vistas à manutenção dos usos múltiplos. Por essa razão, o monitoramento da qualidade da água no local da produção e no reservatório.
Antônio Félix Domingues
Coordenador de Articulação e Comunicação da Agência Nacional de Águas
4Sérgio Storch
wrote on 28 outubro 2011 at 9:49
Oi Thalya, fico bem feliz em ter recebido um comentário de uma pessoa de 12 anos. Só não a publico porque não tem relação com o assunto do post. Mas a dica que lhe dou: na wikipedia você encontrará tudo sobre a água, em todos os aspectos. Onde você mora, e como me descobriu? Adoro conversar com pessoas que gostam de aprender. E pra mim 12 anos também é pessoa. Um beijo